beatnik, inspiração e prática.

o beatnik e todo o estilo descompromissado de escrever acabaram com meu potencial de boa escrita. acredito que minhas leituras de jack kerouac, john fante e bukowski penetraram profundamente em minha cabeça. a idéia de escrever um livro em uma sentada, num rolo de papel gigantesco, com espaços simples, sem parágrafos, me seduziu, me faz acreditar que era assim que o mundo funcionava, que é assim que se fazem as obras naturais, que é com uma noite de bebedeira e falatório que vou escrever os melhores contos que o mundo já leu. mas aí me vem roth, através de lonoff – ou o contrário -, e me esclarece que não, que o escritor deve, acima de tudo, ter paciência e que, antes mesmo de abrir a boca para dizer estar inspirado, deve-se ter o entendimento que inspiração move todo aquele que não sabe fazer as coisas que precisam. é necessário trabalho duro: escrever, ler, reler, revisar, cuidar do texto como se cuida de um filho, como se trata um recém nascido. deve-se trocar suas sujeiras, limpá-lo, asseá-lo, deixá-lo apresentável ao mundo, ao leitor.

culpo o movimento beatnik porque é o movimento cultural que me influenciou numa época extremamente influenciável da minha vida. se, aos dezoito anos, ao invés dos beats e dos malditos, eu tivesse pego algum dos disciplinados, um j.m. coetzee, paul auster, ou um philip roth, conhecido zuckerman e lonoff, não estaria escrevendo esse texto. no entanto, também não sei se escreveria outro, diferente, ou se ao menos teria os sonhos de um dia fazer mais do que textos num blog sem leitores que não sejam meus amigos. sempre fui movido pela inspiração e isso me faz ter um pouco de vergonha de tudo aquilo que escrevo por ser algo tão fracamente construído: a inspiração e somente ela não basta para construir todos os níveis da ficção, por isso, nos últimos meses – por que não dizer anos? -, tenho tentado mudar isso e escrever não quando a inspiração me compele, mas a escrever um pouco todos os dias, mesmo que sejam idéias que não combinem, mesmo que sejam textos que não terminem, tenho tentado escrever mesmo sem ter aquela velha companheira que me fazia escrever mais de mil palavras numa única noite. hoje em dia escrevo cem, duzentas palavras quando consigo uma boa noite de escrita – uma escrita um pouco mais consciente, com auto correções, mas ainda assim com menos revisões do que eu gostaria de fazer – ainda não tenho a disciplina ensinada por lonoff, por graciliano, por todos os grandes escritores.

por mais “inadequeadas” que minhas leituras iniciais em minha formação de aspirante a escritor possam ter sido (boto aqui as aspas por achar que cada uma delas tem, é claro, seu devido valor, ou como uma forma de diversão, por mais estilisticamente mal escritas fossem os livros lidos, por mais crus e sem forma fossem os textos que li naqueles dias, não posso dizer ter arrependimento ou vergonha do que se passou por minhas mãos naqueles dias e até hoje (não nego leituras, ainda não posso me dar a esse luxo, mas, claro, existem sempre prioridades). um desses dias recentes me deparei com dois livros do john fante pelo preço de um e na minha cabeceira está factótum esperando pacientemente por sua hora de ser lido (provavelmente depois de vargas llosa, faulkner e sheakspeare).

tenho um sonho de um dia ter um livro publicado por uma boa editora – boa para mim, pelo menos. mas, a cada texto escrito e a cada livro lido, percebo que estou muito distante da minha meta, entendo que ainda preciso crescer, que ainda preciso, de fato, me esforçar. olho para o que escrevo agora e percebo que nada, absolutamente nada do que está sendo escrito está sendo ponderado, pesado, revisado. não tenho torcido as palavras, não tenho feito como as lavadeiras da beira do rio são francisco. tudo o que fiz foi jogar as palavras na minha frente – nem posso dizer que foi na folha de papel, visto que escrevo no computador e há tempos não pego num lápis e papel para escrever um pedaço de ficção ou meus próprios pensamentos em forma de texto.

a verdade é que sofro de um mal: não sou capaz de inventar. me falta imaginação para criar as situações passadas por um personagem – sei que não é necessário que tudo seja inventado, até porque todos compartilhamos inúmeras semelhanças, mas às vezes não consigo separar as semelhanças de um personagem da pessoa/situação-modelo -, me falta vocabulário, me faltam idéias, me falta a capacidade de parafrasear a mim mesmo, torcer e retorcer minhas palavras como uma vez me ensinou o professor osvaldo epifânio nos idos da minha adolescência. muitas vezes me vi roubando as idéias dos outros e, sem nem ao menos realizar boas modificações nelas, reuni-las com outras idéias, de outras pessoas, transformando as palavras dos outros em minhas palavras. hoje mesmo senti a vontade de roubar uma idéia que li num livro: mulheres são assassinadas, o seio esquerdo delas é decepado e o mamilo direito é arrancado pelo que parecem ser mordidas. então, pensei em escrever um texto que descreve exatamente cada momento que aquela mulher viveu, o medo que sentiu quando foi abduzida, violentada, quando teve um cachorro – e aqui imaginei um dobberman – mordendo sua vulva até destroçá-la completamente, enquanto, viva, chorava e se desesperava, implorava por piedade sabendo que o próximo passo era a morte e não querendo aceitar; ou ainda pedindo a seu sequestrador e torturador que acabasse com aquilo tudo logo, para que ela não sofresse mais. suas lágrimas escorreriam pelo seu rosto, o cachorro então parararia de mordê-la porque seu dono puxou sua coleira e agora mirava a cabeça do cão nos seios nus da moça, que está amarrada a uma pilastra, as pernas fastadas, o sangue escorrendo pelo chão de cimento. no entanto, desenvolver uma ideia de outra pessoa não faz com que essa ideia seja minha. porém como saber se uma ideia é realmente nossa ou uma mera cópia de algo que foi escutado, lido ou visto por nós?

há cerca de dois anos estipulei uma meta para meus textos, uma forma de classificá-los em publicáveis e impublicáveis no meu blog: um mínimo de mil palavras no contador de palavras do wordpress. desde então qualquer texto que não se encaixe nessas exigências é automaticamente classificado como impublicável. no entanto, esse tipo de separação dos meus textos só diz respeito a quantidade. a qualidade, no entanto, é subjetiva demais e, para mim, o dono dos textos, cada um deles é bom, mesmo o pior deles, por expressar pensamentos, sentimentos, por serem experimentações, tentativas de explorar novas facetas literárias ou não, de tentar, através de palavras, expressar o que antes eu não havia conseguido.

preciso de disciplina, algo que nunca tive, e paciência, que está cada vez mais distante da minha atual situação de ansiedade. mal consigo pensar no agora, as coisas que mais me preocupam são o amanhã e tudo o que terei de fazer para lidar com ele, o que me leva a pensar: “então, quando é que terei tempo para melhorar e me disciplinar?”, me arremessando num ciclo de temor do futuro, ansiedade e impotência.

talvez as coisas fossem melhor para mim quando eu não tinha a preocupação com escrever bem, quando tudo era uma piada que eu fazia com meus amigos, que sempre aturaram minha escrita, e meu maior problema com o futuro era quando seria a prova de física e as tentativas de não repetir tantas palavras nas péssimas dissertações que fazia para o professor osvaldo epifânio. mas talvez as coisas sempre tenham sido ruim e hoje, vistas a uma distância segura, pareçam melhores do que eram.

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2 respostas para beatnik, inspiração e prática.

  1. Mins disse:

    Sofro de dilema parecido, você sabe. Concordo que talvez tenhamos lidos as coisas erradas nos momentos errados, mas há conserto. Além de isso, a faculdade de letras me mostrou que eu não sei escrever é merda nenhuma! Por isso, meu hiato recente no blog, meu desaparecimento. O último texto foi escrito a muito suor e sofrimento. Foram semanas trabalhando pacientemente cada parágrafo, ponderando a ordem das palavras, substituindo palavras que costumavam ser minhas favoritas por sinônimos mais apropriados. Fiquei contente com o resultado, confesso, mas não posso dizer o resto dos leitores. Ninguém gostou. Ninguém sequer leu. A literatura é uma arte ingrata, sugar, e ando de mal dela.

  2. Mina disse:

    E ainda por cima eu digitei meu nome errado.

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