a rua.

há vários homens trabalhando na rua agora. são quase dez e meia da noite de uma terça feira e eles – não sei exatamente quantos são, se três ou quinze – estão usando ferramentas pesadas, algo que me soa como uma serra elétrica, para consertar qualquer coisa que esteja errada com o asfalto da rua. se estão com os equipamentos de proteção individual adequados eu não faço a menor ideia, mas o mais provável é que não. há cerca de um mês, eles, ou seriam outros?, estavam a fazer um serviço semelhante em outro ponto da rua, a cerca de 20 metros do ponto atual, em frente a onde vivo. o som que fazem é o mesmo e, como da vez anterior, é provável que o trabalho siga até altas horas da noite e isso implique em muito barulho durante o sono. (recordo-me de levantar uma noite para ver o que diabos era aquilo que fazia tanto barulho e o motivo e me deparar com quatro homens vestidos de laranja, dois deles manuseavam uma britadeira, outro deles era responsável pela sinalização do local e outro conduzia um veículo pesado, algo para prensar o asfalto, talvez, a memória me falha e talvez esteja danificada devido às noites mal dormidas daquela época)

a rua nunca é quieta. ela jamais se cala de verdade e ter esperança que ela se silencie é tolo como esperar um nobel de literatura para o dan brown, inimaginável como o completo desenvolvimento técnico-científico da áfrica e o fim da mão de obra barata. lá fora, a vida é expressada através do som ininterrupto de carros acelerando, freando, a disparar seus alarmes anti-furto, caminhões de lixo fazendo a coleta pela madrugada, caminhões de carga passando acima do limite de velocidade permitido para sua carga a soar pela rua, além de animais latindo, miando, gritando bêbadas, gritando drogadas; tem prostitutas falando entre si sobre seus problemas, sobre seus clientes, sobre os shows que frequentam para se divertir, para trabalhar, conversam sobre suas famílias, seus cafetões, seus filhos, suas coceiras, seus corrimentos, seus problemas, suas doenças, suas vidas; há vida na rua por toda a noite e juro que já ouvi vozes chorosas implorando, dizendo que não, não, depois uma porta de carro batendo e o motor do automóvel aumentando sua contagem de giros, soltando a fumaça do combustível pelo escapamento e deixando as marcas de pneu no asfalto e minha espinha fria, um suor brotando na minha testa ao pensamento que se eu colocasse minha cabeça para fora da janela da cozinha ou do meu quarto eu terminasse por ver qualquer coisa que me comprometeria, como vi tantas vezes nos malditos filmes que terminaram por moldar meu caráter.

sempre passa ônibus na rua, não importa a hora que seja, sempre há um passando, mesmo que a partir de meia noite a passagem diminua a frequência e só passe de hora em hora, tem-se a certeza que um deles fará seus sons de chegada, ao longe, que aumenta conforme se aproxima do prédio onde moro, fazendo o chão tremer ao passar em frente e irá embora deixando atrás de si os resquícios dos ruídos de seu corpo pesado a se arrastar pelos buracos da rua, pelas elevações, as má formações, sempre fazendo o som inconfundível de um ônibus pesado com três ou sete pessoas dentro.

os carros mais leves e as motos tendem a ser mais silenciosos, mas as exceções se fazem muitas vezes com motoristas que pesam a mão em buzinas à uma da manhã, ou que resolvem explorar o potencial de seus automóveis em plena madrugada, já que a rua está livre à sua frente como nunca acontecerá durante o dia, já que os semáforos estão todos prontos para serem ignorados, já que todos eles sentem que estão com o moral elevado o suficiente para não serem atingidos pela realidade: acidentes de trânsito acontecem a toda hora, por mais improvável que a hora esteja, sempre haverá um outro automóvel cruzando a avenida sem olhar se vem alguém, sempre haverá um caminhão que queimará a luz vermelha e atingirá um carro cujo motorista estava distraído e viu que estava verde para ele e seguiu, e então fugirá do local sem prestar socorro, deixando um homem sangrando entre ferragens.

por cinco minutos a cada hora, há uma quase quietude lá fora. são os momentos em que acontece a introspecção da rua, quando ela resolve dar vazão à criação de seus pensamentos, sua autocontemplação, sua melancolia, enfim, o que quer que explique esses cinco estranhos minutos em que posso ouvir meus próprios pensamentos sem ser atrapalhado pelo som cortante de um motor.

os homens da rua se foram, quase uma hora depois do início do trabalho, no entanto os sons da vida lá fora continuam, sem serras elétricas agora, mas com martelos se chocando contra pedras, dessa vez um pouco mais distante que esses 20 metros. eu poderia colocar uma música para mascarar tudo o que vem lá de fora, mas ela acabaria por se mesclar aos sons mais fortes e eu perderia as doces melodias para o som da vida real, o som do massacre que acontece lá fora a cada segundo, a me lembrar que estou aqui dentro, ouvindo, olhando, nunca participando.

mas não me queixo de nada daqui de dentro, onde posso ouvir as histórias que a rua me conta, conversar com ela como se fala com uma velha amiga, como fazem os conhecidos de tempos. sento e ponho meus ouvidos atentos, ouço os assobios, os ruídos de passos se arrastando no asfalto, ouço as portas se fechando de maneira estrondosa em algum lugar da noite. a rua fala comigo toda noite, sempre a contar suas novidades, seus segredos. de dia sou só mais um entre tantos lá fora, mas, à noite, quando ninguém mais se dispõe a ouvir o que ela tem a dizer, sinto que sou o ouvido para quem fala a rua. às vezes ela fala mais do que eu gostaria, às vezes mais alto do que o ideal, mas ou se aceita ela do jeito que é, do jeito que vem, ou se tapa os ouvidos e dorme.

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4 respostas para a rua.

  1. Lud disse:

    Ideia e execução interessantíssimas. Gostei muito do tema e do paradoxo interposto entre a poesia da coisa em si e da forma crua de descrevê-la, que você alterna com uma escrita mais poética, também, poética ao teu modo. Gostei do fato da rua falar, esses detalhes que poucos percebem, esses sons da madrugada que parecem mais altos que os dos dias corriqueiros. Gostei do eu-lírico, também. Do modo realista com que ele fala que não deixa de ter seu lado onírico. De ele ser o ouvido da rua. Muito, muito bom.

  2. Marden disse:

    Concordo com a moça das calças Nº 44.

    O modo como o narrador vê a rua na crueza e no lirismo foram muito bons.

    Texto bom, man.

  3. nelsonnetto disse:

    texto foda. a rua como vida, ser; a percepção da rua que é “contada” de um modo suposto, com uma precisão própria… achei muito bom. e mesmo essa sua precisão teve muito de poético por conta da rua. sensacional.

    FH

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