a história.

no início do dia 30 de dezembro do ano de 2006, um sábado, estávamos, eu e amigos, reunidos para celebrar mais um ano de vida de um dos nossos. o encontro tivera início na noite do dia 29, no térreo do eugênio I, o prédio que recebeu por tantas vezes nossas reuniões alegres e serviu de palco para incontáveis eventos que moldaram a vida de um número alto de pessoas importantes do meu convívio. gostaria de dizer que relembro de cada detalhe daquela noite, mas então eu estaria mentindo, e não me agrada faltar a verdade comigo mesmo. é provável que estivéssemos com alguns instrumentos musicais, porque sei que, ao fim desse dia, saímos da casa com uma das melhores versões da música “cálice”, do chico buarque, que já existiram, incluindo entre elas a original (a música que fizemos se perdeu no tempo, e hoje tudo o que tenho dela são as lembranças de quatro ou cinco jovens assistindo ao sol nascer e formando frases absurdas que se encaixassem perfeitamente na melodia já conhecida por todos).

talvez tivéssemos conosco um filme. acho bastante provável que depois que recebemos o aviso que estava tarde demais para ficarmos aos cantos e berros na área comum do prédio, tivemos que nos retirar, mas sem a menor vontade de acabar com aquela noite, afinal, éramos jovens, estávamos de férias, era quase um novo ano e o sono poderia ser reajustado outra hora. resolvemos que o que quer que estivéssemos a fazer seria continuado no apartamento do meu amigo. 703. por volta de meia noite, demos início a uma sessão de filme que foi interrompida, lembro bem, pela mãe do anfitrião, a dona da casa, que surgiu saída de seu quarto para nos mandar tirar aquele filme da tela e ligar em qualquer canal de televisão, a história estava sendo feita: saddam hussein havia sido executado a uma hora da manhã do dia 30 de dezembro. assistimos ao vídeo de saddam pouco antes de ser enforcado, conversando com as pessoas ao seu redor, tranquilo, vimos seu corpo pendurado pelo pescoço, seu rosto inchado, sem o capuz negro tipicamente usado em enforcados.

éramos jovens, o mais velho de nós completava 19 anos naquele dia, o dia da morte de saddam hussein. a guerra do golfo foi, para nós alguma coisa que aconteceu quando tínhamos 3 anos, enquanto aprendíamos as vogais, saddam hussein cometia alguns crimes contra a humanidade para pode enriquecer através do petróleo. crescemos e vimos o homem de bigodes constantemente presente em noticiários, sempre abalando a já abalável área do oriente médio, acusado de concordar com as ações tomadas por terroristas e protegê-los, primeiro ministro de um país que supostamente teria armas químicas não declaradas escondidas das nações unidas, deposto de seu cargo através de guerra, a primeira que minha geração pôde acompanhar do início ao fim com senso crítico e um melhor entendimento do que se passa.

lembro de, poucos dias depois desse dia, escrever um poema que dizia que saddam hussein estava morto. lembro de caminhar no sol às seis da manhã em direção à parada de ônibus e do carro dos pais de um amigo ir embora com ele, que não dissera onde passaria a noite e estava prestes a receber sua punição. então, cheguei em casa, dormi, e vivi minha vida de alguma forma. o ano mudou e, no segundo dia de 2007, escrevi que saddam estava morto, que eu tinha visto tudo. o poema não tem nenhum significado, só achei que seria algo importante a ser registrado de alguma forma e não consegui deixar de achar que a notícia de que um dos homens mais caçados do mundo àquela época estava morto era um fato de certa forma poético, o fim de algum ciclo desses tantos que formam a vida.

passei o dia 1 de maio de 2011 em casa. esses quase cinco anos que espaçaram a morte de saddam e a data escrita serviram para dar vazão a inúmeros acontecimentos na minha vida e na daqueles que me rodeiam; o mais marcante para mim talvez seja a mudança de cidades. foi um domingo e, depois de dois anos com o mesmo botijão de gás, ele final e infelizmente acabou na hora do almoço. naqueles dias, minha televisão ainda transmitia imagens desfocadas, descoloridas e cheias de chuviscos – hoje ela vive desligada exatamente por nem isso conseguir fazer. por volta de meia noite do dia 2 de maio, fui informado através de outra as invenções do tempo, o twitter, que o presidente dos estados unidos, barack obama, faria um pronunciamento ao vivo informando a morte do terrorista responsável pelos atentados do dia 11 de setembro, a completar 10 anos, na tarde daquele dia primeiro. era o segundo grande vilão da história que eu vi morrer, mas esse foi o primeiro que vi surgir, afinal, por mais que ele já existisse e cometesse seus atos de terrorismos antes de 2001, foi somente naquele ano que o mundo criou a mítica figura de osama bin laden e o terror ao seu redor. o homem que feriu os estados unidos em sua própria casa, torando-se o homem mais odiado no mundo pelas mortes de cerca de 2.200 pessoas em um dia, levando o “país da liberdade”  a uma guerra contra o terror e fazendo com que tropas fossem enviadas ao afeganistão e ao iraque, para trazer a democracia e acabar com o terror que essas nações traziam ao mundo. nos três primeiros anos da guerra do afeganistão,  entre 3,100 e 3,600 civis foram mortos em bombardeios das tropas americanas, mais 1,700 morreram nos idos do quinto ano de conflito, que durou mais cinco anos e elegeu um presidente com a promessa de que retiraria suas tropas dessa guerra, que se tornou indesejada pela maioria da população estadunidense.

o presidente falou e eu ouvi. ele disse que as tropas americanas souberam há pouco da localização exata do esconderijo do homem mais procurado da terra, e invadiram sua casa, executando-o e dando um passo importante no caminho da paz. o mito morreu e eu só me disse: “é, amigo, osama está morto, o obama se deu bem.”, não fiz nenhuma elegia, não escrevi nenhum poema.

quase cinco anos se passaram desde que saddam morreu e hoje ele e osama estão mortos. ultrapassando a barreira que pensei existir entre aquilo que está aqui e o que foi escrito, a história está acontecendo ao nosso redor e, como disse roth, todos nos tornamos parte dela, querendo ou não.

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5 respostas para a história.

  1. Marden disse:

    E o tempo continua correndo macio como o novo sedan…

  2. Lud disse:

    Time goes by, my friend.
    Gostei muito da reflexão (e do poema)

  3. nelsonnetto disse:

    foi um dia épico! legendário! sem dúvidas.

  4. Bons tempos que não voltam mais. Mas se renovam…

  5. Maximo disse:

    Man, obrigado por essas lembranças.

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