do começo e da continuidade.

eu não lembro com que idade eu me tornei capaz de identificar letras, formar e unir sílabas lidas e transformar toda essa simbologia em algo lógico, fazendo com que tudo tivesse sentido. sei que desde cedo me vi rodeado por figuras que liam: minha mãe devorava livros com tanta frequência e numa velocidade tão grande que eu sinto vergonha hoje de quão lenta minha leitura flui; meu pai sempre comprava gibis da turma da mônica para mim, e quando se deitava depois do almoço para fazer a sesta, sempre levava consigo algumas revistas para ler até dormir; minha tia lia incontáveis romances de banca de revista: julia, sabrina, qualquer nome de mulher cuja história sempre envolvia uma paixão mais fulminante que hepatite, algum moreno misterioso, essas coisas. sempre ganhei livros de presente de natal ou aniversário, mesmo quando eu achava que ganhar livros não era a melhor coisa do mundo, quase comparado a desembrulhar uma meia, um pijama ou uma cueca, mas hoje penso diferente. não lembro qual o primeiro livro que li, o primeiro de todos, mas me recordo perfeitamente qual foi aquele pelo qual dei início de forma consciente à vida de leitor, mas ele não deve ser mencionado agora, talvez mais à frente.

por volta dos oito anos, eu já lera alguns livros paradidáticos (lembro-me de severino faz chover, da ana maria machado, lido na segunda série do ensino fundamental), muitas edições da turma da mônica – se hoje sou um leitor ativo, devo muito ao maurício de sousa e suas criações, e foi numa tarde de caminhada pelas ruas circunvizinhas à casa da minha avó que dei início a leitura de quadrinhos de super heróis. paramos numa banca de revistas nova, demos uma olhada no que havia por ali, minha avó se interessava por revistas que apresentavam novas receitas de comida ou faça você mesmo sua roupa ou artesanato. foi na prateleira mais próxima ao chão que a vi: uma revista pequena, com uma faixa de papel branco completando a capa, que tinha um homem saindo de chamas, sangrando e com sua roupa rasgada em certos pontos, um rosto raivoso, e acima da figura, seu nome: Batman, e a numeração em destaque: número Zero! achei que seria uma boa hora para se começar. Um ano e meio depois eu ganhei da minha tia a assinatura do pacote da DC.

anos se seguiram e eu continuava com minhas leituras de quadrinhos, expandindo para outras linhas além da do homem morcego, superman, liga da justiça. o primeiro quadrinho da marvel que comprei foi uma edição de “a teia do aranha”, número 96, que prometia dizer quem era o verdadeiro homem aranha: peter parker ou ben reiley. até hoje me pergunto como eu pude ser tão tolo de ler todas aquelas edições lixos que eram publicadas, como fui enrolado pela maldita saga do clone. sinceramente me questiono como diabos eu tive coragem de continuar lendo quadrinhos levando em conta a época maldita que foram os anos 90 para eles.

fato é que continuei lendo e em 1999, no brasil, teve início a saga “massacre”, com a edição de abertura sendo “massacre x-men”. na segunda capa do quadrinho, em edição americana e tudo mais, padrão que se seguia apenas nas minisséries e edições especiais da abril – e estranhamente, spawn e o selo image/top cow -, havia uma propaganda de um livro:  “jornada nas estrelas, a nova geração e x-men: planeta x” e esse foi o primeiro livro lido por mim, já pelo começo de 2000, depois de uma feira de livros que aconteceu em alagoas, na qual meu pai me levou, e pude encontrar esse livro, finalmente.

meses foram devorados até que conclui a leitura, 243 páginas sem ilustrações, um feito nunca antes conquistado por mim, que na época recém quase concluíra a primeira leitura de “amor de verão”. hoje, quase 12 anos depois de lido, mal posso esboçar um resumo do que vem a ser a aventura contada no livro. ao fim daquele ano de 2000, ganhei de uma tia, no natal, “harry potter e a pedra filosofal”, o primeiro livro da série da j.k. rowling (por que estou explicando o que é harry potter?). até fevereiro de 2001 eu havia lido os três primeiros livros dela.

a lista segue, cada vez mais confusa, quadrinhos indo e vindo, até que cessei a leitura por completo por volta de 2002, mesmo ano em que li “o hobbit” pela primeira vez e o senhor dos anéis, além do cálice secreto. depois disso tudo, meu histórico de leituras fica confuso, com lembranças de coleções de fantasia (a sétima torre, a trilogia de dragonlance, discworld), livros de comédia do luís fernando veríssimo, dan brown e, enfim, um sem número de best sellers, aos quais devo muito do meu gosto literário atual, visto que sem eles eu não prosseguiria minhas leituras.

foi quando saí do colégio que comecei a me interessar mais por livros, a lpm estava com um catálogo atraente e preços que eram mais que sedutores. associado a isso, houve a descoberta de vários clássicos da literatura na estante ao lado e o furto de “o evangelho segundo jesus cristo” da estante de uma tia. nessa época li kafka, saramago, garcía marquez, douglas adams. mas eu era jovem, impressionável, queria mudar o mundo e chutar a bunda de todo mundo, e o que gostei mesmo naqueles tempos foi de ler jack kerouac, john fante e bukowski, os sonhos doces de viver de bebida e viajar por aí, a leitura sem nada além da leitura, o oco. eu queria mais era xingar alguém e reclamar – não que eu não queria isso hoje, mas naquela época eu só fazia isso e não era nem um pouco sutil nas coisas que eu escrevia, e não que eu tenha melhorado muito, mas é que hoje em dia, pelo menos, eu tento trabalhar um pouco mais as coisas ficcionais que escrevo, pelo menos o suficiente para eu pensar que elas não são tão embaraçosas assim para se associarem a mim. eu queria era festejar, pegar uma mochila, jogar nas costas e sair por aí.

não digo que o que leio agora é melhor que o que você lê hoje (provavelmente é, mas não é sempre que será, além de isso não vir ao caso). o valor da leitura, o valor do escritor, da literatura, é o leitor que dá. não é a leitura de best sellers que fará de você um mau leitor, menos ainda a leitura de augusto cury, padre marcelo rossi ou aquele outro padre bonitinho. quer ler tudo sobre vampiros? ótimo! existem coisas muito boas sobre o assunto: drácula é sensacional, anne rice construiu um império e reformulou o mundo da mitologia vampiresca com suas crônicas; quer ler sobre magos e bruxos? ótimo! a fantasia está repleta deles e gandalf, o cinza que virou branco está aí detonando balrogs! todos precisamos de um ponto para começar e não é um livro dito ruim que impedirá a leitura de um dito excelente. o mau leitor não é nenhum desses. o mau leitor é aquele que simplesmente não lê.

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3 respostas para do começo e da continuidade.

  1. Leitura é uma questão de hábito e cultura que se inicia na infância. Até hoje nunca ouvi ninguém dizer que não começou com a turma da Mônica, ela auxiliou muita gente, mas essa continuidade e evolução de leitura, poucos conseguem.

    Gostei do texto, das referências, achei o final pretensioso.

  2. Laís disse:

    Concordo muito com sua última frase.
    Mas senti seu preconceito literário e não posso concordar com ele. Acho que a leitura em si é boa. Eu não vou ler a saga Crepúsculo, mas simplesmente porque acho que a mim não vai acrescentar nada. Tem gente que gosta, então acho bem válida a leitura. Eu perco meu tempo com livros infanto-juvenis quando sei que o mundo tá cheio de clássicos fantásticos esperando que eu os dê uma chance. Mas é que tem épocas em que eu não estou in the mood pra ler Dostoievski, só isso.
    Gostei do texto, enfim.

  3. Pingback: LEITOR CABULOSO – Literatura c/ bom-humor » PODCAST: CabulosoCast Drops #18 – Em Chamas, Silmarilllion, Crepúsculo, Cinquenta Tons de Vergonha, O Hobbit

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