o irmão.

Lembro a noite em que ele foi embora. Pediu suas coisas ao pai e foi. Duas sacolas de pano penduradas às costas, seguindo o caminho de terra que levava embora daqui. Ele precisava sair, me explicou; queria saber do mundo, descobrir as coisas que havia lá fora e que, aqui dentro, nunca seria capaz de ter. Lembro que foi uma noite fria, fato bastante estranho para um verão, e a lua não era mais que um fino fio amarelado no céu. As estrelas pintavam a noite com sua luz cheia de passado.

O pai se sentiu mal por dias, sentava-se em sua cadeira e se punha a pensar, o olhar perdido em algum lugar do passado, ou do futuro, imaginando onde errara, se errara, e o que poderia ter feito para ser correto, mas sabia que não podia se dar a esse luxo por tanto tempo e, logo, voltamos ao trabalho. A tarefa na casa ficou mais dura, cuidar de tudo era quase impossível. Trabalhávamos de sol a sol, nossas peles se escurecendo como a dos mouros sob o brilho do céu, ficando seca, com um aspecto de sujo. Algumas vezes íamos além e, vendo a lua nascer, rezando para que houvesse luz o suficiente para fazermos nosso trabalho como o Senhor gostaria que fizéssemos, trabalhávamos até acertar a colheita do dia.

A mãe só fazia chorar e orar e, em suas orações, fazia uma série de promessas vazias a Deus, dizendo que se seu bebê voltasse faria de tudo, jejuaria todos os dias até o sol se pôr por um ano, faria caridade, iria ao templo todos os dias e trabalharia lá como era a vontade do Senhor. Parecia que a mãe tinha perdido o único filho que parira, o único por quem tinha amor. A mãe chorava sempre que se lembrava dele, e era impossível não lembrar todos os dias em que acordávamos e ele não estava lá para fazer o que viria a ser uma barba um dia, mas que agora não passavam de apenas alguns finos fios que cresciam de forma aleatória em seu rosto adolescente; para tomar o leite recém-ordenhado com a nata gorda a flutuar no copo cheio; o café preto quente e forte para acordar, acompanhado do pão dormido do café da manhã, acompanhado do queijo feito por ele mesmo, peças grandes que fazia e que nos servia de alimento por dias. Toda hora do almoço era uma dor, porque todos sentíamos aquela ausência à mesa. Seu lugar ao lado da mãe e mais distante do pai, em frente à nossa irmã, que sentava ao meu lado, parecia gritar por atenção. Por alguns dias, os primeiros, a mãe chegou a encher seu prato com a mistura do dia, o peixe, o frango, a carne, até que ela percebia o erro, pedia desculpas ao pai, se levantava com lágrimas nos olhos, redistribuía a comida para todos e seguia calada em seu lugar, com o olhar marejado, sem dizer uma palavra a ninguém. Era-me impossível não me lembrar dele no arado, carregando a enxada em suas costas, segurando firme no cabo para fazer um bom serviço, para arar muita terra e, ainda que fosse um pesado trabalho, a terra úmida sob seus pés, sujando suas unhas, tornando seus pés negros como carvão, fazendo-o suar e feder, ele conseguia carregar um sorriso de satisfação, ele me confessou um dia, antes de cairmos no sono, por ser aquela a vontade de Deus e do pai, por saber que seu trabalho tem frutos. E quando voltávamos à casa depois de um dia de árduas obrigações, lavávamo-nos bem, retirando dos nossos corpos o cansaço acumulado, arrumávamo-nos para a janta iluminada pelas velhas velas, o pão quente, o café com leite, o queijo e ele sempre era o que mais parecia grato por tudo aquilo.

Mas um dia… um dia o sorriso que ele carregava ao fazer seus trabalhos já não aparecia mais em seus lábios, fazia tudo o que lhe era de dever, mas sem aquele prazer que um dia teve, somente o rosto sério e grave, uma expressão nunca antes apresentada por ele, até então. Com o tempo, ele começou a ficar distraído, voador, já não trabalhava com a vontade e então… então ele se foi. Arrumou as coisas que lhe foram dadas ao longo da vida, as roupas, uma túnica bonita, para festas e rituais, que ganhara há dois aniversários, algumas de suas roupas de arado, três túnicas gastas do dia a dia e seu kipá, além de algumas das economias que o pai e a mãe haviam guardado durante anos para um dia realizarem o sonho de possuírem algumas cabeças de animais, deixando-os quase pobres novamente. Ele foi para a vida, onde se perdeu, onde se esqueceu, de onde jamais enviou um mensageiro portando notícias de sua vida, que achamos que tivera um fim, e chegamos ao ponto de quase realizar ritos funerários de tão abalada e certa da morte de seu caçula que a mãe estava. Mas agora ele voltou. Agora voltou pedindo ao pai a oportunidade de trabalhar para nós mais uma vez, a chance de ser um dos nossos poucos empregados. E o pai o toma em seus braços como se esse, agora homem já feito, de barba grossa, cabelos longos, rosto queimado e gasto, mãos calejadas, nunca tivesse abandonado a casa, como se a traição não tivesse sido feita, e faz-lhe uma festa, dá-lhe do nosso melhor e eu, que nunca deixei a casa, jamais pensei em abandonar o lar, porque reconheço sua santidade, eu que sempre estive aqui por ele e pela mãe, eu… eu nunca ganhei tais coisas.

E se ele estava perdido entre mortos e foi encontrado vivo agora, quero eu também ser encontrado entre os mortos. Deixo a casa, pai, mãe. Deixo-vos porque sinto agora que viver por vós não significa nada, que viver por vós nada acrescentou à minha vida. Deixo-vos e digo que, se agora eu caminho entre mortos, entre mortos hei de deitar-me. Não farei como o irmão que, quando veio o desespero e a morte lhe bateu à porta, lembrou-se de onde sugar mais vida.

Digo-vos adeus em poucas linhas porque poucas linhas serão o bastante.

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4 respostas para o irmão.

  1. Boa versão, muito bem escrita.

  2. Marden disse:

    Texto muito bom, man.
    Melhor que a versão oficial.

    Bom ver suas ficações de volta.

    Força e Honra.

  3. Lud disse:

    txaaaaaaaaaaa… que foda! =D
    ótima versão. gostei particularmente dessa imagem “As estrelas pintavam a noite com sua luz cheia de passado”. Linda.

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