domingos.

já se findou outro dia, um desses que duram vinte e quatro horas e acabam com a semana e destroem o homem de formas irreparáveis exatamente porque, depois deles, começa mais uma vez a labuta. acabou-se o descanso, o tempo para relaxar como se não houvesse nada mais no mundo além do livro que está na cabeceira da cama ou os jogos de futebol na televisão e a comida que foi pedida pelo telefone, as horas e horas de cerveja, pizza e filmes no escuro ao lado de um corpo quente e querido que se enrola ao lado na cama, se protegendo do vento frio que sai do ar condicionado pendurado na parede, e o dormir tarde, ver o sol nascer depois de acompanhar o avanço da noite, cada estrela aparecendo e sumindo, piscando à distância no céu da cidade, tão vazio, tão sem sonhos e sem magia, imerso em poluição, uma camada que separa o firmamento, há tanto cantado, do homem, além do dormir muito, por horas e horas, acordar somente depois que o sol já está descendo seu arco no céu. acabou-se tudo isso. agora é hora de deitar cedo, se por na cama e fechar os olhos e se mover, e só sentir o sono chegando depois de muito tempo e adormecer mais tarde do que o desejado, levantar cedo, com o sol brilhando, subindo no leste, fazer os exercícios da manhã, os alongamentos, os abdominais, tomar um banho frio para lavar o suor e o sono, tomar um café quente para acordar de verdade, para sentir um começo de vida se acendendo dentro de si, comer um pão com um queijo, ou sair de casa às pressas, porque mesmo tendo dormido o que desejou, ainda não foi menos do que o necessário para não chegar atrasado onde quer que tenha que chegar.

tem início, uma vez mais, o ir e vir incessante, as horas de movimentação, somente mais um dentro de outro automóvel, no meio de milhares, indo lento em seu caminho, que por mais diferente que seja do dos outros ao redor, a essa hora todos parecem ter somente um rumo. o sol mal nasceu por completo quando se dá conta de que não importa o quanto se tente, se não sair mais cedo de casa, se não deitar mais cedo, vai ter que se privar de mais horas de sono. as buzinas são altas, o som toca uma das músicas que não saem do carro para que não haja nunca a possibilidade de se escutar rádio. o movimento subitamente melhora e os carros começam a correr, finalmente a terceira marcha, a quarta, os sessenta quilômetros por hora, talvez não chegue atrasado, afinal de contas, talvez tudo dê certo e talvez não tenha que perder os preciosos minutos de sono que tem. alegria, alegria. chega ao trabalho quase no limite do horário, nos últimos minutos de tolerância para bater o ponto, os colegas o olham com cara amarrada, ninguém dá bom dia, ninguém parece gostar de ninguém ali ou em canto algum, mas a vida segue e o trabalho começou, pronto para devorar qualquer momento particular que se venha a ter, qualquer segundo de esperança de que haverá um descanso em breve logo é frustrado por mais trabalho e mais esforço e os chamados ininterruptos.

não é diferente do que acontece aos outros, não é especial, é mais um trabalho, são as mesmas de oito a doze horas diárias, são os desejos de férias e as vontades de que todo dia seja um sábado à noite tranquilo, é a saudade da cerveja forte com pizza quatro queijos do fim de semana anterior, é a frustração por se recordar imediatamente das horas extras prometidas para o próximo sábado, é a exaustão que bate ao fim do dia, mas o sol ainda brilha e o almoço está sendo servido em algum lugar, mas ainda não pode ir porque faltam coisas a serem feitas.

se sente assim todo domingo ao pensar que é segunda feira o dia que se segue, mesmo em férias, mesmo quando não há trabalho, a lembrança que algum dia terá de retornar àquele inferno que só lhe serve de fator de risco para infarto o faz tremer, suar frio, sentir um aperto no peito e fazer com que o coração acelere, hiperventila por alguns momentos até que consegue se acalmar. o terror do retorno ao trabalho, à vida que se repete todo santo dia, num ciclo sem fim e sem variação, vez após vez após vez após vez, à pressão sobre si, às pessoas que dependem dele, aos colegas que despreza por parecerem não se importar com o que acontece ao redor, o faz querer nunca mais pisar ali, o faz querer mudar toda sua vida, fazer sabe lá o que, viver do que conseguiu economizar até agora, morar sozinho sem luxos, com seus livros, suas músicas, sem o terror de ter pessoas dependendo dele para qualquer coisa, sem ter pessoas querendo colocar suas vidas em suas mãos. a interconexão entre todos o faz ter vontade de ficar deitado em sua cama toda manhã, se levantar para urinar, beber água e voltar para a cama e dormir, dormir até que o mundo inteiro mude, até que as pessoas ao seu redor já não sejam as mesmas, até que os filhos dos filhos de seus filhos tenham esquecido quem um dia ele foi. queria poder dormir e encontrar uma paz em seus sonhos e, quando levantasse, que não lembrasse de nada sonhado, porque é assim que ele prefere.

ele sente o peso da existência todo dia, não só aos domingos, e não sabe como conviver com isso, mas ainda acha que existir é a única maneira de encontrar uma solução. a não existência não o seduz, as possibilidade do futuro que se estende à sua frente são, ao mesmo tempo, magníficas e desesperadoras e a certeza de um dia deixar de estar ali e parar de sentir o medo das segundas feiras, o nojo pelo trabalho, as certezas de sua rotina, não lhe parece uma coisa correta, lhe parece absurdamente frustrante. prefere viver com medo a não viver, para o que sente há remédios, há soluções.

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2 respostas para domingos.

  1. minha vida, com exceção do último parágrafo.

  2. nelsonnetto disse:

    tem (vários) dias que são assim.

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