mais daquilo que poderia ter sido e não foi.

no dia 5 de abril fiz uma postagem diferente de todas até então, contendo começos, meios e fins de textos que nunca tiveram um começo, meio e fim. estou há mais de meses sem completar um texto de ficção, estou há mais de um mês sem postar qualquer texto nesse espaço. hoje repito a idéia do dia 5 de abril, com novos textos sem começo, meio e fim.

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são quatro horas da manhã quando ele sai de casa, pega o carro e dirige até seu apartamento. a rua escura e deserta o faz pensar.

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ela disse que havia comunicação no silêncio depois que ele passou meia hora sem emitir um som.

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hoje li um texto meu de cerca de dois anos atrás. muita coisa mudou, mas quase tudo continua semelhante, se analisarmos tudo de forma distante e capaz de abstrair e interpretar. acredito que a principal diferença desse texto de hoje para o antigo seja o fato de eu já ter assistido a alguns filmes do woody allen e estar menos decepcionado com os estudos, no entanto ainda não é nele que está toda a minha concentração.

eu já não escuto joni mitchel, e não é como se eu escutasse ela tanto assim, anteriormente, mas há cerca de dois anos eu escrevia um texto pessoal como esse ao som dela. hoje estou em uma fase mais erudita, da qual espero não sair por um tempo. ludwig é executado no meu player do computador, um notebook diferente, cujas letras ene e bê e as teclas de interrogação e alt gr não estão funcionando.

é um mundo fantástico, certamente, e muita coisa aconteceu com ele nesses tempos que não tenho escrito. acredito que a mais importante delas, para mim, tenha sido a conclusão da primeira leitura de “o arco íris da gravidade” – o quarto está quente -, há cerca de cinco dias. foi um dos livros que mais levou tempo para concluir sua leitura esse ano, me tomando quase seis semanas para transpor suas densas 785 páginas. acho que o outro livro que me exigiu tanto foi o 2666, do bolaños, lido por volta de abril a maio.

sinto fome agora. sinto um cansaço, mas não do corpo. sinto vontade de parar.

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para o sexo existem as prostitutas, para as conversas e alegrias, os amigos. misturar esses dois parece uma boa idéia que se torna problema.

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estava um calor infernal e ele tomava uma bebida gelada, o copo transpirando tanto quanto ele molhava sua mão e o deixava incomodado. por isso tomava tudo rápido. sua camisa colava em seu corpo, mostrando seu corpo, as curvas de sua barriga

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ela acende o isqueiro bic com a mão tremendo, o líquido no recipiente transparente está no final e o dinheiro que tinha dobrado e enfiado no sutiã foi embora nesses dois pedaços enfiados na ponta do cachimbo. torce para que funcione, enquanto seu polegar pressiona e gira a roldana uma, duas, três vezes, escorregando por ela sem funcionar como deveria, a pedra não gera a faísca, continua tentando até que por volta da décima ou vígesima tentativa desesperada a chama brilha na noite, gerando pouca luz e aquecendo o contúdo do pito. O cheiro leve de borracha queimada começa a tomar o ar e ela suga tudo para seus pulmões. O coração começa a pular na caixa torácica e ela dá um grito, quase uma comemoração, um alívio. Está pronta para trabalhar, pelo menos no começo dessa madrugada. Ainda fumará duas ou três pedras mais essa noite, mas tudo depende da clientela.
Ela trabalha há dois meses nessa esquina, antes trabalhava a quatro ou cinco blocos dali. “Quando eu tinha mais corpo, era mais gostosona e essas coisa, quando eu topava ‘menas’ coisas, ‘menas’ safadezas, aí a ‘crientela’ era ‘menas’, sabe? Dava pra dois ou três por noite, mas só a frente, a parte de trás só fui começar a dar depois da ‘premêra’ ‘preda.'” Ela disse que fumou a primeira pedra de crack há quatro meses, e foi um antigo namorado que a ofereceu.

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“Não entre em pânico!” diz o dispositivo utilizado por Arthur Dent e Ford Prefect para explorar a galáxia. No entanto, em alguns momentos, parece que é tudo o que os personagens criados por Douglas Adams fazem.
Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, o autor nos apresenta um cidadão inglês comum, que não quer nada além de tomar seu chá e cuidar de sua vida, mas, num dia como outro qualquer, descobre que sua casa será demolida para a construção de uma autoestrada e que os planos já estavam à disposição na prefeitura há meses. Incapaz de mudar o fato, inconsolável, Arthur Dent, agora sem teto, encontra seu amigo Ford Prefect, um ruivo estranho, que se revela um extraterrestre e começa a falar sobre como devem sair do planeta, pois dentro de momentos ele será destruído. Assim começa a saga do último homem da terra.
O autor, também nativo da Inglaterra, utiliza de um humor ácido e depreciativo para criar uma crítica inteligente e precisa sobre o homem e suas relações com seus semelhantes – ou quase semelhantes, quando tomamos os Vogons como os chatos burocráticos que por vezes parecem dominar o mundo com seus formulários e horas de espera por uma informação – e com a tecnologia que o cerca e é mais frequente e importante com o passar da hora. Mesmo tendo sido concebido pelos idos de 1970, o livro continua atual em suas observações e em seus personagens, especialmente o robô Marvin, que faz astutas observações sobre as raças inteligentes e sua insignificância em relação a sua capacidade de raciocínio.
O Guia, como é chamado, é uma leitura agradável e leve, ao mesmo tempo em que contém uma força de imaginação e abstração que nos leva para os confins da galáxia e além.

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não sei mais o que é escrever. como colocar uma palavra atrás da outra de maneira gramaticalmente correta, de um jeito que, ao fim, seja agradável, interessante (para mim muito mais que para meu leitor) e que dure mais que meia dúzia de orações? como escrever sem começar a sentir uma angústia por saber que aquele texto iniciado vai ter o mesmo fim que os últimos trinta tiveram? já não tenho esperanças em relação À minha escrita, hoje eu ficaria feliz só por ter sido capaz de completar a minha meta de palavras, mesmo que elas não fossem tão boas, mesmo que elas não se encaixassem tão bem. hoje eu queria mais quantidade a qualidade, porque sei que a qualidade do pouco seria a mesma do do muito: não muito boa. mas eu não faço isso por mal, é que eu só queria escrever. me sinto mal quando não o faço, quando não consigo, quando as palavras fogem de mim como qualquer coisa foge de qualquer outra coisa que queira evitar, já que minha cabeça não está para metáforas, nunca esteve, acredito. queria que tudo fosse diferente, mas não é e isso me angustia. onde estão minhas palavras, onde está minha imaginação, meus personagens, minhas vozes? será que tudo se calou em mim? será que tudo morreu? Às vezes eu acho que sim, que não ouço mais nada, que não há mais nada, nenhuma vontade além das pequenas, de deitar e ler um bom livro, ouvir uma boa música, comer uma boa comida, sozinho, num quarto frio, ou em uma biblioteca climatizada, com controle de umidade, sem traças, com livros convivendo em paz e harmonia entre si e comigo. sonho com essa biblioteca, Às vezes, e ela é minha e somos felizes juntos, eu e ela e nossos livros. hoje vi guerra e paz, pela editora cosac naify, e babei por ela. e desejei ter 198 reais em meu bolso e tempo em vida para poder gastar com os volumes (dois). mas o tempo de vida é curto, o dinheiro não é meu, nunca foi. não sei mais o que dizer sobre coisa alguma. há anos eu sonhava com uma cabana no meio do nada, hoje sonho com uma biblioteca, talvez o paraíso de borges, quem sabe? não acredito em paraísos extra-terrenos, mas o borgiano é demasiado tentador.

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Uma resposta para mais daquilo que poderia ter sido e não foi.

  1. a beleza dos recortes descobertos. os retalhos da feiura de um colchão espesso de densidade. assim estáeoé seu (s) texto (s). abraços pi.

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