ódio.

“nunca achei que fosse odiar tanto assim” as palavras saíam tranquilas, num fluir leve, como se ele falasse de uma tarde de domingo que brilhava fresca ou o sol refletido no mar azulado, ou do frescor dessa noite de sexta, ou do sabor de um vinho de safra excelente. “nunca achei que fosse encontrar uma pessoa que me despertasse tanto asco, tanto nojo e tanta raiva quanto essa.” o interlocutor, um homem jovem, cabelos cortados rente ao coro cabeludo, a barba feita, falava com amigos na mesa de sua casa, copos em mãos, gelo, whisky, cerveja para alguns. na mesa, além da garrafa de jack daniels, uma tábua contendo queijos e defumados, algumas azeitonas. os amigos mastigavam enquanto ouviam. “mas aí um dia me descubro pronto para odiar, muito mais do que para amar. não sei se vocês conhecem um texto do neil gaiman, na edição 64 ou 66, no arco ‘entes queridos’, quando ele tem que pagar o preço pelas coisas que fez, enfim… nesse número ele faz desejo encontrar com sua neta, se não me engano, e essa personagem nos presenteia com um monólogo sobre o amor. alguém já leu? é um texto até famoso, li antes mesmo de ler no quadrinho.” alguns de seus amigos acenaram, outros balançaram a cabeça em negação, perguntando como era o texto “eu não saberia dizê-lo todo, sou péssimo com declamações e coisas assim, mas sei que começa ‘você já amou? terrível, não é?’. partindo desse texto eu gostaria de fazer a minha declaração sobre odiar. vocês já odiaram?” tomou um gole do conteúdo de seu copo, o sabor forte, um tanto adociado, fez com que sentisse seu rosto se contrair numa leve careta, apesar de achar aquele o melhor whisky que já provara, correção, whiskey, como são todos aqueles produzidos fora da escócia. olhou para seus amigos esperando uma resposta, inclinou-se para frente, espetou uma azeitona sem caroço e um cubo de queijo provolone e os pôs na boca de uma vez, mastigando-os e sentindo seus sabores se misturarem em sua língua. alguns dos amigos lhe responderam com sorrisos e piadas, mas é claro que odiavam. esses dias, disse um, odiou um homem por ter estacionado o carro atrás do seu, trancando-o e fazendo com que se atrasasse para um compromisso; outro confirmou o sentimento relatando da vez em que o namorado da sua irmã comeu toda a salada de frango que sobrou do jantar e que guardara para si. todos riam. quando o silencio caiu levemente sobre eles mais uma vez, ele falou: “todos foram exemplos hilários de sentimentos que nós chamamos de ódio. mas eu me referia ao verdadeiro sentimento de ódio. aquele impulso que se assemelha em muitas coisas ao amor, que ao invés de paixão, há uma sede inexplicável de vingança, de querer não apenas o mal, mas querer que esse mal venha para esse objeto do nosso ódio através das nossas mãos, que sejamos capazes, acima de tudo, de fazê-lo perceber quão inadequado aquele ser é para a vida, quão miserável ele é. e, admito, enquanto esse é um sentimento estimulante, extasiante, é, ao mesmo tempo, algo deprimente, incapacitante, angustiante.” todos prestavam atenção a ele “digo isso porque é impossível alcançarmos todos os planos dos nossos desejos de ódio; frustrante saber que nunca seremos capazes de fazer o mundo inteiro ver esse objeto como merecedor de nosso desprezo.” nesse momento lhe bateu uma sede, levou o copo à boca mais uma vez, daqui a três ou quatro goles, pensou, acharão que estou bêbado, dizendo incoerências, besteiras, mais das mesmas coisas de sempre. sorriu um riso claro, nada afetado pelo álcool, olhou para seus amigos, que o ouviam atentos, como todos sempre ouvem uns aos outros. pensou em como, quando a garrafa chegasse ao fim, as latas de cerveja estivessem amassadas na lata de lixo, estariam mais relaxados, alguns fazendo declarações inesperadas, chamando uns aos outros de mais que amigo, de irmão, dizendo que são eles a família que escolheram, mas ele não precisava do álcool para saber daquilo, ninguém ali precisava. “e só de pensar nas possibilidades de fazer o mal a esse objeto, só de sonhar em fazê-lo sofrer, diminui-lo, reduzi-lo a menos do que ele merece, a menos que pó, “mostrou os dedos indicador e polegar bem próximos um do outro “me enche de uma sensação sádica de prazer e de frustração.” respirou profundamente. um dos amigos perguntou o porquê da frustração. “ah, amigo, porque é algo a que se resiste, esse sadismo, algo ao qual não se deve entregar completamente, senão nos perderemos para sempre nele. é frustrante porque sabemos, enquanto sentimos, que odiar algo com todas as nossas forças nos exaure, cansa muito. e também porque nada do que sonhamos sairá disso, nunca se tornará realidade, não pelas nossas mãos, não como tanto gostaríamos que fosse. odiar alguém é esperar. é ter a paciência necessária para observar e torcer que ela cave sozinha seu caminho para essas coisas que tanto desejamos a elas. é frustrante porque não seremos nós que entraremos em contato com um matador de aluguel e pediremos com que pareça um acidente, um assalto ao qual ele reagiu; ou não seremos nós que arrancará cada unha com um alicate, nem nós que cortaremos a carne lentamente, nem quem empalará com uma ponta oca o corpo do nosso objeto, nem nós que amarraremos cada um de seus membros em um cavalo e açoitaremos os quatro, cada um em uma direção, nem nós a amarrá-lo a uma cadeira, em um quarto escuro, e deixá-lo lá com uma gota d’água a pingar em sua testa pelo tempo que precisar, até que ele implore por sua morte, até que ele ache que morrer é a única coisa que ele deseja. enfim, acho que vocês entenderam meu ponto.” sorriu para os amigos. alguns ficaram calados, pensativos, outros, no entanto, pareceram empolgados com os métodos de tortura, complementavam o discurso com alguns de seus favoritos como choques, dissecar os testículos ou simplesmente cortá-los fora e dar aos cachorros para se alimentarem. “o texto do gaiman termina dizendo: ‘eu odeio o amor’. eu queria poder escrever o meu e terminá-lo com ‘eu amo o ódio’, mas não sei se é bem verdade. mas o mais engraçado de todo esse ódio, meus amigos, é que ele só existe por causa de amor.” e aí um dos amigos que ficara calado boa parte do tempo respondeu: “mas quando é que não é assim?”

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4 respostas para ódio.

  1. Curti o texto, bem expressivo, Fiquei na curiosidade de quem teria provocado tanto ódio no personagem.
    bjs

  2. Detalhe eu deixei uma tag de love /hate no comentário e ela sumiu!!!!! o wordpress aceitou o html love /hate =OOOOOOO

  3. Marden disse:

    Muito bom, man!
    Deu vontade de ler sandman de novo. E esses seus monologos junto dos amigos são sempre foda.
    Bom te ver escrevendo de novo, man!

  4. nelsonnetto disse:

    “odiar alguém é esperar. é ter a paciência necessária para observar e torcer que ela cave sozinha seu caminho para essas coisas que tanto desejamos para elas.”

    gostei muito do texto, dos amigos, da bebida e do tiragosto. do fato como tudo pareceu familiar.

    FH

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