alfa.

Ela tinha dezessete anos, mas podia passar por vinte e poucos sem levantar suspeitas. Um metro e setenta e três, cinquenta e seis quilos, embora quando a encontraram pesasse pouco mais de trinta. Seu corpo se encontrava em um estágio avançado de decomposição. O cheiro forte e a presença de aves carniceiras rodeando o local levantaram suspeitas nos vizinhos do terreno, mas não houve nenhum chamado para a polícia até uma tarde de abril, quando uma criança correra atrás de sua bola de futebol e encontrou o corpo.

Identificaram-na e a polícia entrou em contato com sua família, que havia entrado com uma queixa em relação ao desaparecimento da filha havia um mês, mas nada fora realizado e tomaram o caso como fuga do lar, muito comum nessa idade. As fotos que a família divulgou encantaram os policiais e causaram comoção na mídia e no povo. O caso teve repercussão nacional, matérias e matérias em todos os meios de comunicação foram produzidas sobre os acontecimentos – um canal de televisão chegou a exibir, em uma semana, seis programas sobre o assunto, sempre exibindo as imagens da jovem sorrindo, feliz, evocando toda a vida que teria pela frente não fosse o trágico destino que a esperava; um jornal chegou a imprimir um pôster em página dupla, estampando sob seu sorriso letras vermelhas que diziam: “ONDE ESTÁ O MONSTRO?”.

O corpo apresentava severas escoriações, eram claras as lesões em seu crânio – uma rachadura no osso frontal, achatamento no parietal -, os ossículos das mãos e pés se encontravam esmigalhados e alguns dentes quebrados, três costelas estavam quebradas. Seus órgãos internos não passavam de uma papa e os testes patológicos eram inconclusivos. A morte ocorrera há cerca de três semanas, mas a causa era não esclarecida: podia ter morrido de um ataque cardíaco ou ter sangrado até a morte.

A polícia começou a investigação buscando possíveis assassinos com depoimentos de seus pais, mas eles disseram que até onde sabiam sua filha nunca relatara qualquer confronto entre algum colega e ela. Revistaram seu computador pessoal à procura de qualquer registro de conversas que pudessem indicar um caminho a ser seguido na investigação, mas nada estava guardado em seu disco rígido, que continha apenas músicas ilegalmente adquiridas, filmes e seriados idem e fotos de sua câmera digital, que revelavam a morta como uma adoradora de paisagens, pássaros e pôres do sol. Seu nome era Andrea e, de acordo com depoimentos colhidos de colegas da escola que frequentava, era uma boa aluna. No fim do ano, era seu último ano de ensino médio, prestaria vestibular para engenharia ambiental. Sua turma de colégio, um tradicional, religioso, dissera que era uma garota calada em sala, sem perturbar professores ou alunos. Os professores disseram que não era uma aluna que se poderia chamar de genial, tampouco de medíocre. Seus pais também disseram que nunca apresentara um namorado à família, e relatava que nunca houvera caso de briga em família, sendo ela considerada por seu pai “uma menina calma e tranquila, sem rebeldias ou desobediências, a filha que pedi a Deus”. A mãe se apresentava chocada em seus depoimentos, sendo de pouca utilidade. Seus colegas de colégio informaram que era uma garota calada em sala de aula e estava sempre lendo. Quando perguntados sobre interesses românticos de Andrea por algum colega a resposta unânime era que não, que ela nunca se relacionara com nenhum dos colegas e que, para falar a verdade, ela quase não tinha amigos, Duas de suas colegas mais próximas, que freqüentavam a casa de Andrea ocasionalmente, disseram que a vítima estava se relacionando com um jovem de vinte e três anos, que aparecia duas vezes por semana no pátio da escola na hora do último sinal e ficava a conversar e rir. Disseram que a amiga o apresentou como um amigo, não como namorado, em certa ocasião, resultando em mais duas ou três conversas entre o jovem e elas. Ambas choravam muito ao interrogatório, mas ainda revelaram o nome do universitário: Fabrício; disseram também que ele se apresentara como estudante da escola de direito do estado, no entanto, não sabiam onde ele morava. Disseram também que nunca viram Andrea beijá-lo e jamais os ouviram trocar qualquer tipo de carícia em público além de elogios afáveis como “você está linda” e “você é muito interessante”.

A polícia encontrou Fabrício chegando em casa depois de uma quinta feira de aula. Era um tipo pequeno, não mais de um metro e setenta e cinco, com uma certa protuberância abdominal e ainda apresentando espinhas vermelhas na cara branca, a barba pro crescer ajudava a disfarçá-las. Perguntado se poderia reservar um pouco de seu tempo para conversar, reagiu de forma defensiva, e foi preciso insistência da parte policial até um convite para entrar em sua casa. Ao receber a notícia da morte da amiga, pareceu chocado, surpreso com tal informação e seu rosto expressou indignação ao perceber que ali estavam homens que o consideravam um dos principais suspeitos do crime. Disse que de nada sabia e que tinha um apreço enorme por Andrea. Quando questionado em relação a um possível envolvimento sexual entre os dois, sorriu e perguntou: “tudo para vocês é uma grande relação sexual, não é mesmo? no fim de tudo, a vida e a morte se resumem a sexo.” e deixou a pergunta sem resposta por algum tempo, até um dos policiais, eram três que o visitavam, resolver intervir dizendo que Fabrício sabia o quão importante são esses detalhes e que se ele realmente se preocupava com a menina morta, colaboraria com tudo o que pudesse. Ele acenou com a cabeça, encarando cada um dos três visitantes, e disse que sim, que havia um envolvimento sexual entre eles, mas que não era o único. Havia outros dois que ele sabia que iam para a cama com ela, conhecera-nos numa noite em que ela saiu com ele e o dissera que estava trepando com os dois. “Ela era do tipo boêmia, sabe? Adorava homens das artes.” Os nomes que Fabrício entregara eram de Carlos e Maurício, e o que ele sabia sobre os dois é que o primeiro trabalhava como chef de um restaurante e músico numa banda chamada “As sementes ruins”. Perguntado sobre Maurício, soube informar que ele era da mesma banda, e que tinha certo conhecimento sobre pintura, ao menos foi o que Andrea falou ao apresentá-los. “Ela disse que ele era o melhor pintor que ela já tinha visto e que ele sabia de tudo, dos melhores artistas, das melhores tintas e melhores técnicas.” A polícia saiu da casa ao ouvir seu álibi: estava nos estados unidos desde janeiro, tendo retornado há cinco dias, fato provado, enquanto a última vez que alguém a viu com vida foi há quatro semanas, Fabrício estava liberado.

A investigação seguiu, então, para a próxima pista: Carlos e Maurício. A banda faria uma apresentação na noite de sexta feira em “Um buraco qualquer”, uma boate onde drogados, pseudo revolucionários e pretensos artistas iam para desfilar seus egos. Encontraram Maurício primeiro. Ele, um sujeito bonito, de seus vinte e cinco anos, olhos castanhos claros, um queixo quadrado e a barba por fazer, no entanto tinha o aspecto sujo e sua roupa tinha manchas estratégicas de tinta. Ele conversava com uma garota linda, de não mais de dezoito anos, e dizia como adorava o surrealismo e a maneira como Dali expunha seus sonhos sem se preocupar em retratar qualquer coisa lógica, sem se preocupar com os julgamentos dos outros, ou de como a crítica poderia ver suas obras. A garota parecia hipnotizada pela conversa, seus olhos o encaravam com fascínio e adoração, como se dizer aquelas palavras, decoradas de uma revista de sala de espera de consultório médico, fizesse dele um homem interessante e exímio conhecedor das artes plásticas.

Maurício tentou dispensar a conversa com a polícia dizendo que estava acompanhado e ocupado naquele momento e que se quisessem papo com ele teriam de esperar até depois do show, mas logo pareceu se dispor a conversar quando mencionaram que ele era um dos principais nomes na lista de suspeitos do sumiço e assassinato de Andrea e que, se não colaborasse ali, talvez fosse melhor levá-lo para a delegacia, onde alguns colegas fá-lo-iam ajudar com o serviço. Ele deu um beijo nas bochechas da garota com quem falava e disse para ela procurá-lo depois do show, se afastando em seguida com os policiais. Começou a dizer que ficara devastado com as notícias da morte da garota e que sentiria falta dela e “até mesmo das bizarrices dela.”. Quando questionado a que tipos de “bizarrices” se referia, falou: “Cara, aquela guria tinha uns problemas de afeto fodas. Pra começar, ela só me chamava de papai e ao Carlos, meu amigo, o ‘padrasto’,” caiu na risada “a ele ela chamava de painho. Mas ela só chamava a gente assim na hora de trepar, que, na verdade, era a única hora em que ela chamava a gente, sempre os dois, nunca um só. E, acredite, eu tentei ir com ela sozinho, mas ela nunca topou, sempre queria foder com o papai e com o painho juntos. Não sei se o Carlos conseguiu alguma coisa com ela, mas acho que não. Ela só queria os dois pais pra foder com ela. Como dizem os gringos, ela era ‘total fucked up’”. A conversa com ele rondou esse assunto e o número de vezes que fizeram sexo “umas seis ou sete.” Dispensaram-no pedindo que mostrasse onde poderiam encontrar Carlos e, pouco antes de subir ao palco, tomar o microfone e cantar com sua voz grave e fora do tom da música que a banda tocava, ele confirmou tudo o que Maurício dissera, além de afirmar nunca ter feito sexo com Andrea na ausência de seu amigo “Eu até tentei, cara, mas ela dizia: ‘ou com os dois ou com nenhum. ‘” e confirmara o número de relações: “acho que sete”. Quando perguntado se sabia de algum outro possível amante de Andrea, Carlos disse que havia conhecido Fabrício, mas não sabia de nenhum outro, mas que não duvidava nada vindo dela. Em relação a álibis, estavam bem sólidos e válidos, estando em turnê com a banda em outra região à época do ocorrido.

Voltaram as investigações para o lar de Andrea, procuraram destrinchar a relação que ela tinha com o pai, no entanto, nada confirmava qualquer indício de abuso; em conversa com o pai, explicando sobre seu envolvimento com Fabrício e os outros, sem deixar claro seus desejos por sexo grupal e o fato dela chamar dois de seus amantes de pai, e o pai parecia chocado, disse que nunca soubera de nenhum relacionamento de sua filha e, até onde ele sabia, ele juraria que ela era abstêmia. A mãe, no entanto, que não prestara depoimento anteriormente comentou ter conhecimento da existência de Fabrício, mas mostrou-se tão chocada quanto o pai em relação a Carlos e Maurício. A polícia a investigou em particular, com suspeita de obstrução de investigação, mas a hipótese foi retirada da mesa após algumas perguntas, uma análise do perfil por um psiquiatra e muitas horas de choro. A polícia não tinha mais para onde ir.

Um mês se passou, a investigação perdia o foco a cada dia, a mídia já não noticiava mais nada sobre o caso. Havia cada vez menos rastros do assassino, se é que já houve algum, até que se deu o caso como inconclusivo, sendo arquivado e gerando protestos por parte da família, que referia incompetência da parte da polícia. Três meses depois a família apareceu na delegacia trazendo um pacote com fotos de Andrea sendo torturada e morta. Impresso no verso de uma foto, que mostrava o corpo morto de Andrea cheio de sangue, letras negras diziam: “minha primeira vez.”.

Dois dias depois, encontraram o corpo de Bianca.

esse texto foi postado originalmente no blog Halls de Café

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Uma resposta para alfa.

  1. nelsonnetto disse:

    reli esse texto porque lembrei dele e sabia que tinha gostado muito. e foi isso mesmo!

    a narrativa ficou foda com a predominância do discurso indireto. só acho que ficaria mais foda se fosse um policial narrando. ficaria com uma pegada mais maneira.

    FH

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