Maiakóvski.

“eu queria ser capaz de ter algo pelo qual morrer” ele pensou. tinha maiakóvski na cabeça e admirava como o poeta russo conseguira amar tanto uma idéia. ele se achava incapaz de ter tanto amor assim por uma ideologia a ponto de matar e morrer por ela. a verdade é que não achava que existisse nada que realmente valesse a pena se morrer por, nada digno de sacrifícios próprios e por ter esse pensamento sempre em mente, acreditava nunca ter experimentado do amor real, aquele de que ele tanto ouvia falar, que tanto via nos casais nas ruas que, entre beijos, se chamavam por apelidos carinhosos, diminutivos, órgãos, sentimentos, enfim, uma gama de nomes que ele nunca conseguiria se ver chamando alguém. é claro que já achou ter amado. algumas vezes na vida, na verdade, mas nada tão forte quanto os amores incutidos nas obras literárias ao longo dos séculos, nunca se imaginara como um romeu precipitando sua morte por não conseguir imaginar sua vida sem sua julieta; um v. amando sua vingança como a arma mais poderosa que tinha, como o único caminho para a liberdade e para a justiça; e muito menos conseguia imaginar-se transcendendo a barreira do real e se tornar um clyde parker unido pelo resto da vida pelos crimes cometidos ao lado de sua amada bonnie, até a estrada final, lado a lado.

lembra-se dos versos que lera quando tinha 20 anos e tudo o que tinha era a fé e a esperança de que as coisas mudariam um dia, de que sentiria em breve aquilo que lia naquelas palavras, alguma coisa o faria sentir. mas o tempo passou e levou embora as idéias, as ilusões e os fatos daqueles tempos. no entanto, aquelas frases permaneceram em sua memória.

“afora o teu amor

para mim

não há mar,

e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.”

era isso que ele queria para si. era nisso que queria acreditar. era exatamente isso o que queria possuir: um sentimento tão imenso, que além dele nada existisse, que, além dele, nada importasse, que tudo o mais ao redor, as distrações da vida, não aliviassem o sentimento. queria sentir o que leu em tantos livros, nos romances longos, repletos de retratações da sociedade, nas novelas curtas e nos contos, sempre concisos, mas profundos e capazes de o iluminar sua visão em relação à brevidade da vida e a intensidade que há nela, e nos poemas, em toda a grande literatura, que por menos que falassem sobre o amor, conseguia explorá-lo de formas únicas e inovadoras, fazendo parecer que afora ele, nada mais no mundo é realmente algo importante. ele queria entender o que era aquele amor que via em tantos filmes, em tantas mídias, que lia nos jornais e nas revistas, que exibiam fotos dos casamentos entre amados supostamente eternos.

tinha o livro do poeta russo aberto na página dos versos que lia.

a ponta de seus dedos grossos passeia sobre a página amarelada e áspera, já manuseada tantas vezes por outros dedos, que talvez só tenham passado por alto sobre a página, à procura de algo mais concretista. a polpa do dedo médio busca sentir a impressão da tinta preta no papel, mas é em vão, há sulcos e marcas na página, mas não são de sua impressão, e sim do tempo e uso. o que sente lhe dá um nó na garganta, seu coração começa a acelerar e sente um frio na espinha.

“sairei correndo,

lançarei meu corpo à rua.

transtornado,

tornado

louco pelo desespero.”

é isso que imagina que qualquer pessoa que já amou deva sentir ao ouvir o ser amado expulsá-lo de sua vida; é assim que imagina que devia ter se sentido ao fim de cada uma das coisas que lhe eram queridas, seu pai, sua mãe, suas esposas, mas não foi. era assim que devia ter se sentido todas as noites em que violeta chorava e dizia que nunca o entendia, até o dia em que ela se cansou de tanto sofrer por ele, pela falta de interesse – ele sabe que o que lhe faltava, na verdade, é o amor que sempre quis sentir em si – que ele demonstrava aos assuntos relacionados a ela e a vida a dois, e, com decisão em sua voz, disse que queria o divórcio, ou melhor, sua carta de alforria, indo embora com o único filho do casamento, ricardo, uma criança de sete anos que acabara de ler seu primeiro livro, que logo cedo descobriria como o amor era importante através das páginas infinitas. deveria ter se importado mais com aquele ser frágil que era o menino, estar em todas as suas festas de aniversário, dar sempre os melhores presentes, guiá-lo através da vida como todo pai repleto de amor faz. queria ser repleto de amor. imagina que, quando violeta disse que não aguentava mais aquela vida com ele tão distante, deveria ter se lançado à rua louco de desespero e implorado por seu retorno, jurado mudança, declarado amor por ela e pelo filho, que hoje o chama pelo nome e só telefona quando precisa de dinheiro para pagar as contas de sua casa, as despesas com sua esposa, com os filhos. netos que o viram três ou quatro vezes em dez anos, que ele não reconheceria se os vissem passar por ele.

lembrou-se da manhã escura de maio em que o telefone o tirara da cama para receber a notícia que seu pai não havia acordado naquela manhã, e sua mãe chorava na linha dizendo que não sabia o que ia ser dela agora que seu marido tinha falecido depois de quase cinquenta anos de casamento. recorda-se de como achava que deveria dizer alguma coisa para acalentar a mulher abalada do outro lado do fone, mas não sabia o que dizer. na verdade, não fazia idéia do que ele mesmo sentia. sempre soube que quando chegasse a hora de dizer adeus a seus pais ele sentiria alguma tristeza, mas não era como ele esperava, não era como ele imaginava que seria e, definitivamente, não era como sua mãe estava reagindo, com tanto amor. então disse que ficasse calma, que tudo iria se resolver, o homem seria enterrado e não haveria mais nada a fazer depois. a mulher se calou. ouvia sua respiração e seu choro, cada vez mais controlados, e a linha ficou muda. colocara o fone no gancho, tomou café, ligou para violeta e informou a morte de seu sogro, o avô de filho, agora um quase adolescente que chorara como recém nascido por todo o funeral. recordou-se do momento em que o caixão estava sendo fechado e sua mãe interrompeu os trabalhadores para dar um último beijo nos lábios mortos e frios de seu pai, que parecia extremamente sereno naquele caixão, como se dormisse. lembra-se de seu filho abraçado à avó, ambos a verter lágrimas, as pessoas a apertar sua mão, sempre desejando seus sentimentos, suas condolescencias, seus pêsames. lembra de se sentir estranho por algumas daquelas pessoas se sentirem pior que ele. sentia-se estranho, na verdade, por estar sentindo que aquele dia era, para ele, um outro dia qualquer. veio a sua mente também o momento em que violeta lhe deu um beijo no rosto e perguntou como estava, isso ocorreu depois do enterro, na casa da sua mãe, onde ricardo passaria a noite a consolar a avó, e foi somente quando respondeu que estava bem, e viu o rosto de violeta se contrair em preocupação, que viu que havia algo errado consigo.

“afora o teu amor

para mim

não há sol,

e eu não sei onde estás e com quem.”

deveria imaginar que margarida o traía quando estava com ela, deveria se preocupar o suficiente para pelo menos fingir preocupação, mas não sabia como fazê-lo. não tinha idéia de como era viver sem um sol para lhe prover o calor, a luz e a energia necessárias para a vida. deveria ter passado fome por margarida, ter sofrido de insônia, se exaurido e ficado extremamente ansioso, paranoico, emotivo, pedido explicações, se revoltado. deveria ter ameaçado, chorado e não somente aceitado e desejado uma boa vida como fez. deveria ter rasgado as cartas que ela lhe escreveu no começo do relacionamento, quando ele só fazia trabalhar e sonhar com o dia em que não mais trabalharia, quando fazia anos que violeta o deixara, quando era um pai ausente de um filho adolescente. deveria ter destruído tudo o que lembrasse dela, queimado, e se arrependido depois e não guardado tudo e colocado no armário como se fosse um tipo de arquivo a ser acessado se necessário.

“se ela assim torturasse um poeta,

ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,

mas a mim

nenhum som me importa

afora o som do teu nome que eu adoro.”

o cinzeiro ao seu lado está cheio de cinzas do charuto que ele fuma e já queima há mais de meia hora, empestando o quarto com seu cheiro forte, tornando o ambiente quente e abafado. a brasa se aproxima cada vez mais dele, fazendo com que sinta seu calor. imaginava, o livro em suas mãos, que o amor era exatamente aquilo que aquele russo dizia: incorruptível, acima de qualquer tentação, superior às coisas terrenas e passageiras. aquele que ama não se perde ante as distrações da vida, nada o tira do caminho do que acredita ser o correto, do que acha que é o amor. então lhe vem à mente winston se dobrando diante de o’brien e sua sala de tortura, sua gaiola de ratos, seu dois mais dois; winston que dizia que amava julia, mas se rendeu e a entregou; winston que aceitou que não podia ser como ele queria, que o que desejava era impossível, assim como ele, fez julia. acredita ser como eles, desprovido desse sentimento que deveria impedi-los de se entregarem, acha que não conseguiria ser incorruptível como alguém que ama é.

em sua memória ouviu o telefone em seu bolso tocar. estava no trabalho.

“alô?” era violeta, levantou-se e foi a um local mais particular, onde poderia conversar melhor.

“oi, violeta. o que houve?”

“o ricardo.” sua voz expressava preocupação.

sem alterar seu tom, perguntou “o que tem o ricardo?”

“acabei de receber um telefonema da escola dizendo que ele caiu ao tentar fugir de lá pulando um muro e acham que ele quebrou um braço.”

“certo, e…”

“e? e você tem que buscá-lo lá, porque saí do meu trabalho para ir atrás dele, mas terminei no meio de um trânsito infernal por causa de um idiota que cruzou o sinal vermelho e bateu em um ônibus e você está no trabalho e ele é seu filho também, sua responsabilidade também. faça isso!” desligou o telefone.

ele ligou para a escola e deu autorização para que chamassem uma ambulância que levasse o menino para o hospital mais próximo, onde a mãe dele já estaria esperando por ele. ligou para violeta.

“estamos no hospital carlos ii” e desligou. desativou o aparelho e voltou ao trabalho sem nenhum remorso, como se tivesse resolvido tudo da maneira mais correta.

“e não me lançarei no abismo,

e não beberei veneno,

e não poderei apertar na têmpora o gatilho.

afora

o teu olhar

nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.”

pensou que aquele que sente o verdadeiro amor não se desespera, não contempla a morte enquanto ama, porque a única morte possível é mais atraente que o brilho no olhar da pessoa amada, aqueles momentos em que tudo o que se faz é olhar, em silêncio, um ao outro e permanecer assim até que seus lábios se unam, até que tudo, além dos dois, se torne nada e continue assim por todo o tempo. achou que talvez soubesse o que era o amor. definitivamente sabia quem devia amar, só não sabia como fazê-lo.

fechou o livro e o pôs no chão, ao lado da cama. fechou os olhos e se lembrou do dia em que levou sua mãe ao funeral do pai dela, seu avô, e a ouviu dizer, nos ritos de despedida, sua mão quente sobre a cabeça fria, de cabelos finos e brancos:

“pai, quando o senhor vir o meu marido, diga a ele que eu sinto muita falta dele.”

e então pensou que era isso que era amor, que ele deveria sentir exatamente daquele jeito que sua mãe sentia, acreditando no inacreditável. amar era exatamente isso: ter fé no que outros podem não ter, mas não se importar com isso porque há, no pensamento, na intimidade, a certeza de que estamos certos pelas coisas que fazemos.  e quis, mais uma vez, sentir aquilo.

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Uma resposta para Maiakóvski.

  1. Marden disse:

    Bom texto, man!

    E bom te ver publicando de novo.

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