Nó.

às vezes chorava sozinho à noite, quando tudo o que se ouvia eram os carros passando na rua e o ventilador girando próximo do seu rosto. às vezes se pegava pensando como seria se houvesse um deus benevolente – ou até mesmo um cruel -cuidando de toda a terra, de cada um de nós, seres criados sua imagem e semelhança. às vezes se perguntava por que não acreditar nisso, já que seria tão mais fácil. até ensaiava: balbuciava algumas orações que havia decorado nos tempos de primeira eucaristia, mas elas sempre saiam de seus lábios com pouca naturalidade. faltava a paixão de crer.

às vezes, quando pensava muito, ficava triste por saber que seu tempo na terra era tão curto, em saber que depois viria o vazio, e que ele nunca tomaria consciência disso após a morte, porque não haveria como. quando se sentia assim, costumava olhar os álbuns de fotografia guardados, e passava horas vendo os tempos de sua infância, as pessoas que passaram por sua vida, as conhecidas que nunca mais encontrou, os amigos que já não encontra, os cabelos que foram alisados, as roupas que saíram de moda, os rostos que o tempo mudou, seus pais, os pais de seus pais, seus tios e tias e primos e primas que já não se vêem mais porque cada um vive sua vida, cada membro de sua família tem agora uma nova família. . então retirava algumas das fotos e as colocava em destaque em seu quarto, as pessoas que mais amou, as pessoas que já não estão ali. ele vê as fotos e sente vontade de chorar por saber que tudo o que ele tem daqueles momentos é isso: uma fotografia.

às vezes, principalmente quando está chovendo, tudo o que ele quer é ficar deitado em sua cama assistindo a filmes e sentindo o calor do corpo dela ao seu lado. mas ela não existe mais. ela voltou a ser uma ideia, um sonho. platônico. e então ele se sente só por não ter uma vida para compartilhar, um dia a dia para construir, uma rotina para cair, alguém para discutir sobre os filmes que assiste, para reclamar da trama do filme ou se espantar com alguns dos roteiros. ele se sente só no silêncio de sua casa, ouvindo a chuva cair lá fora, porque tudo sempre foi assim: silencioso. sua vida nunca foi cortada no meio do dia por gritos de crianças brincando, sons de pequenos pés correndo, passos secos no piso frio, deixando pequenas marcas de calor que não duram mais que segundos. sua noite nunca foi alegrada por um telefonema de sua filha para dizer que o ama. nunca receberá a visita de netos nos finais de semana, nem organizará churrascos ou feijoadas para a família aos domingos.

às vezes, quando percebe que sua vida está acontecendo naquele exato momento, quando sente o tempo passar, cada contração de seu coração a bombear seu sangue, cada segundo escorrendo, começa a sentir algo que ele só consegue descrever como “nó na garganta”.

às vezes ele acha que esse nó é cego, e não há nada a se fazer, mas boa parte do tempo ele luta para desfazer o nó.

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2 respostas para Nó.

  1. Nelson André disse:

    caralho! foda de verdade!
    gostei muito do texto todo, especialmente o primeiro parágrafo.
    dessa vez você caprichou no feeling, man!
    FH

  2. Lud disse:

    bem cheio de sentimentos fortes e palpáveis. você os ilustrou muito bem com passagens corriqueiras que podem acontecer com qualquer um e são tão banais que pouca gente registra a tristeza disso.

    “quando se sentia assim, costumava olhar os álbuns de fotografia guardados, e passava horas vendo os tempos de sua infância, as pessoas que passaram por sua vida, as conhecidas que nunca mais encontrou, os amigos que já não encontra, os cabelos que foram alisados, as roupas que saíram de moda, os rostos que o tempo mudou (…)”. achei esse o trecho mais foda.

    continue produzindo =)

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