a saudade.

os passos ainda ecoavam em sua mente, e ele era ainda capaz de ver a luz branca entre as frestas da porta ao fim do corredor. não lembra de muito mais além disso quando acorda suando na cama. não sabe que corredor é aquele ou o que espera do outro lado da porta. ele nunca chegou à luz.

é a décima vez nesse mês que esse sonho lhe perturba a mente, causando um frio na espinha e fazendo o suor brotar de sua pele de forma intensa. o coração acelerado não é compatível com uma boa noite de sono, mas ele já não lembrava o que era dormir bem.

seu leito estava vazio, com os lençóis amassados, exibindo o colchão velho nu, onde todas as noites se preocupava com a possibilidade de acordar se desesperando no meio da madrugada. hoje, particularmente, o clima está ameno, úmido, chove do lado de fora e algo o faz pensar que ele está mais sozinho do que nunca antes esteve. gostaria de mudar sua situação.

levanta e vai à cozinha, onde se serve de um copo d’água. suas mãos tremem um pouco, mas não é frio o que ele sente. também não era sede o que sentia, mas deu mais um longo gole.

sabia o que deveria fazer. sabia o que lhe faltava.

saiu de casa com um guarda chuva em mãos e um molho de chaves em seu bolso. estava pronto para encontrar com ela. era o que faltava.

depois de pouco mais de dez minutos caminhando, chegou a uma casa fechada. destrancou o cadeado do portão, abriu a porta da casa e entrou. a escuridão tomava conta do ambiente, mas isso não o fez acender a luz. trancou sua passagem e, com movimentos medulares, caminhou através do aposento até encontrar outra porta.

estava num corredor. do outro lado havia uma porta. ele sabia disso. não precisava ver os contornos dela, nem era necessária a luz que vinha através das frechas. caminhou lentamente, como em seus sonhos, com os passos fazendo um som seco a cada pisada. chegou ao fim e girou a maçaneta. a luz que vinha de dentro iluminou o corredor vazio e o fez perder momentaneamente a visão até suas pupilas se adequarem à luz.

agora via tudo. lá estava ela.

o corpo jazia nu no chão numa poça marrom de sangue coagulado. não havia marcas além de uma lesão craniana que lhe abria o osso e expunha seu cérebro. os olhos abertos pareciam encará-lo agora, verdes e pálidos, sem a luz que os caracterizava antes. o cheiro do quarto beirava o insuportável, mas fora esse odor, o ambiente era praticamente asséptico. se perguntava como ainda não haviam encontrado ela ali.

caminhou até o corpo, ajoelhou-se, pegou a mão nas suas e achou estranha a ausência de calor. nunca antes tocara uma morta. nunca achou que voltaria a tocá-la, mas a saudade foi tamanha que ultrapassou suas expectativas. foi então que a amou pela última vez, sentindo seu sabor, adquirindo sua essência.

voltou para casa sentindo a chuva em sua pele. deitou em sua cama e fechou os olhos. naquela noite sonhou com risadas e declarações de amor ditas em passeios de mãos dadas.

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3 respostas para a saudade.

  1. Marden disse:

    Muito bom, man!

    A virada no final ficou foda.

  2. nelsonnetto disse:

    caralho!
    muito boa a virada! a saudade! a bizarrice! tudo!
    FH

  3. Lud disse:

    Uau. Bem forte. Gostei da narrativa, passou um pouco a angústia do protagonista. Gosto como você explora essa temática. E esse final, sem palavras! Muito bom!

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