cormac.

a festa era barulhenta, como todas sempre são. ele, já no terceiro ou sexto copo de cerveja, começava a sentir que as pessoas pareciam menos entediantes. talvez tenha sido isso que fez com que notasse ela do outro lado da pista de dança. pediu licença a sua companheira e aos amigos dela e foi até o bar, onde teria uma visão melhor do que achava ser uma garota atraente.

ainda com a cerveja em mãos, pediu uma dose de cachaça, que entornou num gole rápido, seguido de um longo gole de cerveja. “para lavar”, costumava ouvir a voz de um de seus amigos em sua mente toda vez que fazia isso. encostou suas costas no balcão do bar e perscrutou o lugar atrás dela. perdera-a de vista. voltou até sua namorada, deu-lhe um beijo longo e disse que estava cansado de ficar em pé. ela o abraçou e deu alguns passos para lá e para cá, tentando simular uma dança que não funcionaria naquele lugar, com aquela música.

“ana, vou descansar um pouco, então. sentar n’algum canto qualquer. vamos?”

“acho que vou ficar mais um pouco por aqui. dançando com a cecília. fica com o telefone na mão pra eu te ligar e te encontrar.”

“está bem.”

beijaram-se e ele se afastou, buscando um local distante da pista, onde pudesse sentar e fechar os olhos.

foi quando a viu novamente. ela estava no escuro e seus olhos negros pareciam sugar a luz enquanto a emitia ao mesmo tempo. nunca ficara tão atraído por um olhar antes. ela bebia uma bebida rosada, sugava um canudo transparente e segurava o copo longo com gelo com as duas mãos, entrelaçando os dedos finos. engoliu a bebida e falou com alguém ao seu lado, balançando a cabeça em negativa e sorrindo com o canto dos lábios enquanto justificava qualquer coisa.

ele passou por ela pedindo licença e encontrou o local para descansar. sentou-se entre dois casais e ficou com o celular na mão, alternando suas ações entre fechar os olhos, encostar a cabeça na parede e contar sua respiração e olhar os minutos passarem enquanto ouve o som à distância.

nesse tempo imaginou que a garota dos dedos longos e bebida rosa sentava ao seu lado e se apresentava dizendo que seu nome era julia e ele se apresentaria e se perguntariam o que cada um fazia e ele responderia que era residente de cirurgia e ela que estava fazendo mestrado em letras, tendo como objeto de estudo a literatura norte americana do pós-guerra. “pós segunda guerra, só pra deixar bem claro”, ela diria. então complementaria sua opinião informando que ele provavelmente não conhece muita coisa desse assunto, afinal, os médicos que conheceu sempre se afundavam ou nos livros de medicina ou nos mais atuais best sellers, e que os livros estudados por ela não era nem o sabinston – ela não diria o nome, mas chamaria de “compêndio de cirurgia” -, nem o george r r martin. ele perguntaria com um sorriso na boca “então, quem você estuda”, para mostrar interesse. e ela responderia “estou querendo trabalhar com a visão do mundo que o cormac mccarthy aparenta ter, as ambientações que ele dá ao mundo que ele constrói em sua literatura, às maneiras como as pessoas lidam umas com as outras, a forma como ele, em algumas de suas obras, quase não passa tempo divagando sobre qualquer assunto. as coisas são como elas são e com ele toda a ação é descrita, e tudo é descrição e, só com isso, ele consegue se aprofundar nas realidades de seus personagens, sem muita punheta mental como a maioria dos escritores faz.” e então ela ri depois de dizer isso. ajeita o cabelo e pergunta se ele está com alguém.

o telefone dele toca. ele abre os olhos. ele continua entre dois casais. casais diferentes, talvez. ele não tem muita certeza. atende ao telefone.

“oi. estou aqui perto dos banheiros. é. é. é perto de uma área de fumantes. não sei. eu vou praí. fica aí. tá certo.”

então se levanta e vai até ana.

ele sorri, a abraça e dá um beijo.

“vamos?” ela pergunta. .

ela dá o braço a ele e saem juntos. na saída, ao entrar no táxi, vê a garota a certa distância. ela acena para ele e parece dizer: “até mais, doutor paulo.”

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2 respostas para cormac.

  1. Lud disse:

    curtxi, curtxi. achei a divagação dele bacana: muito plausível, muito realista e por isso, foda. acho legal quando a escrita consegue captar a realidade e ainda assim ter seu estilo e sua marca autoral. continue, continue! gostando de vê-lo de volta à ativa!

  2. Nelson André disse:

    caralho, man! gostei muito desse!

    “ele, já no terceiro ou sexto copo de cerveja, começava a sentir que as pessoas pareciam menos entediantes.”

    essa precisão dos bêbados. muito foda.

    ““para lavar”, costumava ouvir a voz de um de seus amigos em sua mente toda vez que fazia isso.”

    esses traços peculiares de cada personagem e a particularidade dele, deixando-o mais verossímil. foda.

    “ela estava no escuro e seus olhos negros pareciam sugar a luz enquanto a emitia ao mesmo tempo.”

    lembrou-me capitu da melhor maneira que poderia me lembrar.

    destaco o parágrafo que ele senta inteiro – muito foda! – e o final, que o deixa mais foda! o “parece” da última frase foi sensacional.

    acho que é isso.

    FH

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