c.

c. nasceu numa família pobre, mas nunca lhe faltou educação. dona maria, sua mãe, sempre lhe ensinou o que era certo e errado segundo os preceitos divinos, e lhe disse para nunca matar e sempre honrar pai e mãe, além, é claro, de amar a deus sobre todas as coisas.

o pai de c., seu josé, pedreiro há vinte anos, não sabia ler e só conseguia escrever o nome, e dizia a seu filho todo dia que a maior alegria que já sentira foi ver que sua criança aprendera a ler e a escrever aos seis anos de idade. na formatura do abc de c., e isso ele se lembra bem, viu seu pai chorando pela primeira vez na vida. esse fato só viria a se repetir anos depois, quando d. maria seria consumida pelo câncer de ovário e morreria numa cama de hospital.

foi por volta dos treze anos que c. percebeu de fato que era diferente dos outros meninos e que apreciava a companhia deles não apenas com propósitos de brincadeira. um dia comentou a mesa do jantar que achava um de seus colegas muito bonito. apanhou em casa do pai e viu sua mãe chorar por dias e dias, implorando a seu josé que não expulsasse c. de casa, que ele era apenas um menino e que não sabia o que estava falando. d. maria pediu a c. que nunca mais comentasse qualquer coisa do tipo na casa. por amor e respeito, c. prometeu e cumpriu com sua palavra. c. nunca mais apanhou em casa depois desse dia. no entanto, as surras se tornaram rotineiras na escola e frequentemente chegava cheio de hematomas.

aos catorze, c. arranjou seu primeiro emprego, cujo salário utilizava para auxiliar seus pais em casa. sr. josé e d. maria se sentiam orgulhosos pelo filho trabalhador, mas sempre o estimularam a se focar nos estudos. o filho único era a esperança do casal, que tinha o sonho de um dia serem pais de um professor, um advogado, um engenheiro ou um médico.

aos dezessete ele terminou os estudos do ensino médio e começou a cursar matemática na universidade. o primeiro ano foi corrido e difícil, mas conseguiu concluir sem dever matérias. vinha dando aulas para o ensino fundamental e ensino médio, mas tinha que conciliar com a faculdade, de forma que sua atenção nunca fosse dada exclusivamente a um só local. seguiu nesse ritmo até o meio do sexto período, momento em que sua mãe começou a apresentar um inexplicado aumento do volume abdominal, fazendo com que perdesse algumas muitas aulas acompanhando-a em consultas médicas que pareciam não levar a lugar algum. foi quando ele tinha vinte anos que marcaram a cirurgia para estadiar o câncer.

como resultado da cirurgia veio a informação de que não havia muito a se fazer por dona maria, e que o mais recomendável a ela era a paliação, tendo em vista o conforto da paciente e um maior contato com as pessoas amadas. naquele ano c. trancou a faculdade e largou seus empregos para cuidar exclusivamente da mãe. foi nas idas ao hospital que conheceu t., técnico de enfermagem que o auxiliou em relação aos cuidados com sua mãe e lhe serviu de apoio quando acreditava que não aguentaria mais e se punha a chorar. c. compartilhava com t. momentos íntimos e intensos e t. sempre o acolhia em seus braços. acabaram se apaixonando.

quando d. maria morreu, sr. josé começou a beber. alguns dias voltava para casa bêbado e derrubava sua bicicleta no chão da sala, sujava a casa de vômito e quebrava alguns copos na cozinha. alguns dias não voltava. no começo c. se preocupava com seu pai nas noites em que não voltava. depois percebeu que precisava voltar a viver sua vida. tentou retornar ao curso, para concluir e poder começar a trabalhar exclusivamente, mas não encontrava ânimo em nada. fazia tempo que não sentia mais prazer. passou a pedir a t. que não mais o ligasse e nem viesse a sua casa. não queria mais vê-lo. um dia, depois de sair bêbado do bar pedalando sua bicicleta, sr. josé encontrou no caminho um carro com o qual se chocou. o motorista, um jovem também alcoolizado, não prestou socorro. sr. josé morreu dois dias depois. três meses após d. maria.

foi um vizinho que lhe disse que tinha algo que poderia ajudá-lo. bateu uma tarde à porta de sua casa, entrou, desenrolou uma pedra de crack, colocou-a num cachimbo e a queimou, oferecendo a c., que aceitou sem pensar muito nas repercussões daquela ação. fumaram a primeira pedra em cerca de quinze minutos. a sensação que c. sentiu, descreveu ele, não estava em nada que até então vivera. era um êxtase intenso, uma sensação de ser capaz de entender tudo e ser parte do todo. assim que acabaram de fumar, c. entregou cem reais na mão do vizinho e lhe disse para comprar mais. naquele mesmo dia fumaram quase todas as pedras. no fim da semana, c. já não tinha dinheiro consigo. seu vizinho olhou ao redor e disse: “cara, você tem um monte de coisas aqui que não servem para nada e dariam um bom preço.” naquele dia arrancaram os assentos dos vasos sanitários, que eram de acrílico, e os trocaram por assentos de plástico, venderam uma das duas televisões da casa – a maior -, venderam o sofá -“pra que um sofá, cara, você tem cadeiras!” -, e algumas cadeiras – “cadeiras demais, até!”. o dinheiro obtido serviu para uma semana de pedra. seu vizinho passou a viver em sua casa e começaram um relacionamento.

por volta do segundo mês de usuário, c. recebeu a visita de t., mas não quis recebê-lo. t. forçou sua entrada e encontrou a casa completamente vazia. na sala só restava um colchão nu, deitado no chão. não havia mais camas, móveis ou eletrodomésticos. c. estava pesando metade do que pesava três meses atrás. pedia para t. ir embora, e dizia que não queria que ele o visse daquele jeito – dois de seus dentes haviam caído, sendo um deles devido a uma briga que tivera com seu vizinho antes de ele o abandonar três dias atrás, levando consigo pouco do dinheiro que restava, mas deixando pedras de crack o suficiente para que c. fumasse sem apresentar qualquer sinal de abstinência.

t. o abraçou e pediu para levá-lo consigo. “você precisa ser ajudado, c.. você precisa!” dizia t. entre lágrimas. c. baixou a cabeça e só concordou.

“eu só queria me sentir melhor, t.. eu só queria isso. eu sinto falta…” o choro quebrou sua voz e as lágrimas brotavam de seus olhos injetados. “eu sinto tanta falta.”

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2 respostas para c.

  1. nelsonnetto disse:

    muito bom, cara! não acho que ficou com nhenhenhe de lição de moral. apenas retrato.

    “seu vizinho olhou ao redor e disse: “cara, você tem um monte de coisas aqui que não servem para nada e dariam um bom preço.” naquele dia arrancaram os assentos dos vasos sanitários, que eram de acrílico, e os trocaram por assentos de plástico, venderam uma das duas televisões da casa – a maior -, venderam o sofá -”pra que um sofá, cara, você tem cadeiras!” -, e algumas cadeiras – “cadeiras demais, até!”. o dinheiro obtido serviu para uma semana de pedra. seu vizinho passou a viver em sua casa e começaram um relacionamento.”

    gostei MUITO dessa parte. a perspectiva do olhar do viciado sobre a ‘superficialidade’ das coisas.

    FH

  2. Lud disse:

    uma história bem crua, bem carregada da parte amarga da realidade. gostei, achei plausível, senti dor pelo personagem principal – c. como o nelson disse, o trecho das cadeiras ficou muito bom. interessante você conseguir se transportar, enquanto escritor, para o lado do personagem, para a perspectiva de um drogado. só acho que faltou algo na conclusão, não sei. da forma que está,o final me pareceu vago. não deixa de suprimir o choque de realidade que, eu creio, me parece ser a missão do texto.

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