Telefonema.

alô?

alô. oi.
oi.
e aí?
como tá?
indo. e você?
também.
fazendo?
nada demais. e você?
pensando.
certo.
pensando em fazer um café, daqueles bem fortes, bem cheios de aroma e sabor, para incensar a casa toda, sabe?
aham.
pensando também em comer um biscoito enquanto tomo o café, e assistir à televisão para me ajudar a não ter que pensar tanto.
é uma boa. pensar demais quase nunca é bom.
pensando em depois deitar e ficar enrolada nas cobertas por um tempo, sentindo o calor do meu corpo não escapar tanto para o ambiente, me isolando um pouco.
faz bem.
pensando em como já já vai escurecer e será novamente outra noite como todas as outras vezes foram noites e não conseguirei dormir por causa do café que estou fazendo. acabei de colocar  terceira concha de pó no filtro e a água já está na chaleira.
talvez você não devesse tomar tanto café assim, abra uma exceção hoje e tente dormir cedo, tente não fazer o que você está fazendo.
estou pensando em como logo logo vai ser duas da manhã e eu vou estar me sentindo só, sabendo que amanhã terei que acordar às seis para ir trabalhar, sabendo que de ontem para hoje eu só dormi cinco horas e que depois só dormirei mais quatro e a semana ainda está só no começo e não há horas o suficiente para dormir nos fins de semana porque eles são os únicos momentos em que eu talvez tenha a real chance de não pensar em nada.
estou pensando em como faz tempo que eu quero te ligar para dizer as coisas que venho pensando, porque venho pensando muito em você e em como você está e o que você tem feito, o que está fazendo agora, quem você conheceu essa semana, para que lugares foi, como vai a sua mãe e seu pai, sua avó e tua sobrinha, aquela fofa, e como vai o teu trabalho, tem salvo muitas vidas, aberto muitas pessoas? todas as vezes em que eu tento não pensar e ligo a televisão, algo que passa me faz automaticamente pensar em tudo o que acabei de falar, e aí eu me sinto um lixo, me sinto mal, mas mal mesmo, como achei que nunca fosse me sentir.
ana, olha…
fico pensando por que é que faz três semanas que eu não saio de casa, se eu sei que nada disso vai mudar coisa alguma. a verdade é que eu não quero sair de casa, porque não consigo achar que tenha qualquer coisa interessante. faz um tempo que não me interesso por nada. eu deixei de ler, carlos.
sério?
seríssimo.
…olha, ana. talvez a gente possa nos ver.
ana?
ana?
estou pensando.
certo.
estou pensando que talvez eu não devesse ter feito essa ligação. agora você vai achar que é por causa de você que passei por tudo isso. vai pensar que é porque ainda te amo que te liguei.
não, ana. eu sei que não. eu vi os jornais.
e não me ligou?
cheguei hoje de viagem.
foi para onde?
foi para onde?
para. onde. você. foi?
estava em bruxelas.
bruxelas… com ela?
… é.
vocês casaram, não foi?
foi.
foi a lua de mel?
foi.
acho melhor eu desligar.
ana, você não está bem.
olha, carlos. tem um motivo por que te liguei.
e qual foi ele?
acabei de perder minha família, estou só, você sabe. você, carlos, foi a última pessoa com quem me senti íntima,  por quem senti amor, com quem tive vontades absurdas: acordar todo dia de manhã, tomar café, construir uma casa, ter filhos, toda essa coisa. como você sabe, nada disso aconteceu.
eu sei. eu também estava lá.
é, mas você seguiu sua vida e se apaixonou novamente. eu tive minhas pessoas também, mas não tive mais intimidades. ninguém mais me beijava a nuca como você, ou segurava minha cintura com a firmeza das tuas mãos, ou me olhava com teus olhos. nenhum dos caras que eu tive sabia me indicar leituras tão boas quanto as tuas ou me cantava músicas com a voz grave no pé do ouvido. e aí agora eu perco as pessoas que eu amava, e estou sozinha no mundo. o que eu significo sem as pessoas que amo? que valor eu tenho sem o amor? e é por isso que eu te liguei, para saber se eu morri com eles, ou se ainda estou viva.
ana.
oi.
você sempre estará viva.
mas a morte…
a morte vem para todos. teus pais morreram, isso é triste. eu lamento muito e queria estar ao teu lado quando você precisou do apoio direto, mas não deu. você precisa de apoio agora. e agora eu posso te apoiar. conta comigo. quer conversar pessoalmente?
não sei, carlos, eu…
eu te levo um livro massa.
é?
é.
mas eu nem leio mais.
mas vai ler.
é?
é.
tá bom.
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5 respostas para Telefonema.

  1. Lud disse:

    Achei doído. Gostei do progressão do ritmo da moça – ela começa com aquelas frases curtas de quem quer puxar assunto e parte pruma verborragia. Gostei muito de ela dizendo que não lia mais e da surpresa dele. Encerrou muito bem, ainda nesse mote do livro. Bem real.

  2. nelsonnetto disse:

    “todas as vezes em que eu tento não pensar e ligo a televisão, algo que passa me faz automaticamente pensar em tudo o que acabei de falar, e aí eu me sinto um lixo, me sinto mal, mas mal mesmo, como achei que nunca fosse me sentir.”

    não querer pensar, mas não existir uma fuga. isso foi foda.

    “eu deixei de ler, carlos.”

    esse fato encaixa muito como sintoma. é incrível.

    “o que eu significo sem as pessoas que amo? que valor eu tenho sem o amor? e é por isso que eu te liguei, para saber se eu morri com eles, ou se ainda estou viva.”

    isso aqui pegou na veia. porque se você significa algo de relevante, é pra quem gosta de verdade. que ama. sem isso você é o chato do trabalho, o estranho da faculdade. o sujeito do 202…

    “eu te levo um livro massa.”

    achei foda Carlos falar massa. na moral. a gente tinha comentado isso num texto que o narrador falava massa, acho. mas aqui caiu direitinho.


    precisamos de você de volta, man!

    FH

  3. Marden disse:

    Texto muito bom, man.

    Gostei principalmente do final. As frases singelas e o sentimento da normalidade voltando fecharam com chave de ouro.

    Bom te ver de volta, man!

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