virgínia revisitada.

já li hemmingway. não sei você, mas da última vez que pensei em perguntar, que perguntei, na verdade, nem você nem eu havíamos lido. acontece que o tempo passou e os livros vieram e se foram. antes fossem só os livros, não é? uma série de coisas tomaram a mesma decisão dos folhosos. devo confessar que não li muito dele, foi só “o velho e o mar”, mas acontece que hoje eu não sei mais das tuas leituras, como uma vez soube tão melhor. o que você tem lido, virgínia? você já leu sobre o santiago? o que é que te ilumina os pensamentos no momento? quais são nossos pontos em comum, além do nosso passado, da nossa história? o que nos difere ainda mais um do outro, a ponto de não nos completarmos nunca um ao outro, mas ainda assim conseguirmos manter uma certa sintonia que, creio eu, é o suficiente para não nos sentirmos especialmente constrangidos ou desconfortáveis na presença um do outro? nossos silêncios não nos machucam, nunca machucaram, na verdade, como machucaram os silêncios de nossos amantes, mas nos ajudam a nos compreender, virgínia. só que os silêncios um do outro a gente sabe ouvir, já que nossa amizade foi iniciada em silêncio, e só depois é que as palavras foram ditas e reditas e reditas, mas nunca malditas, até onde eu lembro. mas o que temos a dizer hoje um ao outro? talvez que ainda estamos aqui, vivos, chorando, sorrindo. e que sempre que fevereiro chegar, a saudade já não matará a gente. o que acontece é que das últimas coisas que sei é que você lamentou a morte do gabo, porque você gosta dele, e gosta até mesmo do “cem anos de solidão”, enquanto eu gosto dele apesar dos “cem anos”. mas o lance é que todos, de certa forma, lamentamos. acredito, no entanto, que o maior sofrimento para ele era viver esquecendo. imagina o que deve ser para um escritor viver tentando escrever e se esquecer como é que se escreve, a vida, que era escrita passa a ser dor; viver sem nem saber o que vivia, se é que vivia; porque a morte, às vezes, nos vem em vida; viver como se ele houvesse se tornado um personagem dele, amarrado demente a um lugar qualquer, só esperando a morte chegar. ela veio, como é para todo mundo. você hoje gosta mais de quê além dos latinos? sei que você tem uns tesões por cronistas da prosa leve, apesar de eu não saber bem o que se achar desses crônicas. acredito ser um trabalho complicado, apesar de fácil demais, se escrever uma crônica. o difícil é a assiduidade, mas com um bocadinho de disciplina e um pouquinho de persistência, se consegue cumprir as metas e os prazos. acontece que o teu cronista tem uma fórmula tão clara que seria possível emular um de seus textos, quase nenhum deles com mais de mil palavras. constantemente me pergunto o que ele escreve além daquilo. a verdade é que eu não o conheço, estou começando agora. o que você me diz? provavelmente estou errado, não é? mas está tudo bem, estou acostumado a não estar certo. quem está certo de tudo, afinal? mas me diga, virgínia, o que toca nos teus ouvidos? sei que as músicas que você ouve muito continuam sendo as mesmas que eu evito tanto escutar, mas sempre haverão aquelas que escutaremos juntos. mas será que não expandimos esse número tão seleto? ou o tempo só serviu para que esquecessemos as músicas da estação, reduzindo, assim, o que temos em comum em quesito musical. ano passado cheguei a acompanhar lançamentos de álbuns, escutei e reescutei uma série deles, gostando de muitos e desgostando de outros, mas quais deles você também escutou? às vezes chego a pensar que nenhum deles te agradaria, por serem tão bons, talvez, por serem tão diferentes de tudo o que você costuma escutar quando está em casa, à noite, sozinha (porque é só nessas horas que admitimos nossos reais gostos). não sei o que toca para você, mas toda vez que escuto que ela só tem dezessete, lembro de você imediatamente. mais até do que dela, que só tinha dezessete. virgínia, eu tenho trabalhado, olha só, e sei que você também, só que há mais tempo que eu. e há tanto tempo, virgínia, há tanto tempo vazio em nossos trabalhos. com o que você preenche os teus? consigo te imaginar indo na sala ao lado, conversando com as pessoas que eu não conheço, um copo de plástico na mão, um sorriso orgânico no rosto, os assuntos corriqueiros na ponta da língua – o tráfego, a novela, o fim de semana, a violência – , e o gosto do café na boca. eu digo café porque é o que eu faço. eu tomo café e converso amenidades, tento falar do futebol, puxo assunto sobre o clima, rio das piadas que já conheço e escuto histórias que não me interessam dizendo: “nossa, que interessante”. nesse tempo mudei minha ideia sobre o trabalho também: ele não denigre o homem, como já proferi, mas também não o constrói. às vezes é um empecilho, às vezes é uma fonte de oportunidades, mas a maior parte do tempo é tempo morto. e tempo morto deve ser enterrado. enterro o meu sob montanhas de café. nem sei se você gosta de um cafezinho, mas acontece que eu não consigo viver sem. ano passado passei treze dias seguidos sem tomar um gole, foi difícil, isso eu te digo, mas não foi sem motivo. foi uma época bem negra do meu ano. você tem que gostar de café, virgínia. você não tem cara de chá. o que mais você faz no teu tempo ocioso de trabalho? sei que você já foi chegada a um cigarro, mas será que você sai do conforto de um ar condicionado para se queimar no sol e torrar os pulmões? espero que não, isso não te faz bem. eu mesmo, que fumava quando bebia, deixei de fazer isso há um ano e, espero, logo mais deixarei de beber também. o engraçado é que anos atrás a bebida era menor, e foi crescendo, quando começamos a nos relacionar, virgínia, eu mal bebia e hoje, depois de muita merda e água pelo caminho, estou pensando até em deixar de beber! é que tenho dirigido mais, buscado conforto, tentado relaxar mais e fazer programas mais tranquilos. a idade chega para todos, virgínia, e eu quero mesmo é me sentir bem, provar coisas boas. sinto-me cansado de buscar coisas novas, quero o conforto das tradições. quero um bar para chamar de meu, conhecer os garçons e rir e brincar com eles, ser bem atendido, conhecer gente que eu não conheceria de outra forma, mas sempre do meu local confortável, não barulhento, não hostil. quero um canto legal para eu poder ler um livro em paz quando estiver cansado de ler trancado em casa, como quando eu ia até a praia, sentava na areia, num fim de tarde, e sentia o vento em meu rosto e ouvia o mar quebrando. às vezes a leitura nem avançava tanto, sabe, mas era sempre bom sentir a areia sob os pés e sentir o cheiro salgado tão de perto. e os filmes que você assistiu, quais foram? eram bons? e o teu cheiro, virgínia, ainda é o mesmo? lembra de quando eu te cheirava e meu pulmão queimava de tanto inspirar? você mudou ou é o mesmo? o cheiro da virgínia de anos atrás era o cheiro da alegria. espero que as mudanças que a vida traz não tenham interferido no aroma de virgínia. há tantas coisas que nos separam agora, virgínia, que eu sinto medo de a cola do passado já não prestar tanto assim. mas espero que não deixemos nada de ruim acontecer, e por ruim quero dizer o afastamento tão típico entre as pessoas que seguem suas vidas. e nós, querendo ou não, seguimos com as nossas. você se apaixonou, eu me apaixonei, uma, duas, trinta vezes ao longo desse período, e tiramos anos de nossas vidas para viver com pessoas que nos fizeram algum bem momentâneo, mas que hoje só têm o poder da lembrança. e lembranças, como o gabo podia confirmar, coitado, às vezes nos escapam facilmente. somos mais fortes que lembranças, não somos? apesar de tê-las tanto, ainda temos um presente, um presente distante como se futuro fosse, mas, ainda assim, real como só o agora pode ser. me pergunto, virgínia, o que você acha disso tudo, de crescer. eu, particularmente, não sou fã. sei que é preciso e sei que é a ordem natural, mas existem limites que não quero ultrapassar. não sei você. mudamos tanto, não é? talvez um dia soubéssemos as respostas um do outro para a maioria dessas perguntas que a vida nos faz, mas hoje não. e a culpa é do tempo. o tempo. “o tempo e suas águas inflamáveis”. acho essa imagem linda. já leu? já viu? é lavoura arcaica, do raduan nassar. a última vez que li esse livro, virgína, foi nos tempos em que ela ainda nem tinha dezessete e eu e você ríamos disso. faz tempo. naqueles tempos nenhum de nós havia lido hemmingway ainda. só que agora eu li. e você?

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2 respostas para virgínia revisitada.

  1. nelsonnetto disse:

    “nossos silêncios não nos machucam, nunca machucaram, na verdade, como machucaram os silêncios de nossos amantes, mas nos ajudam a nos compreender, virgínia.” – achei isso muito bom. sou fã desses silêncios.

    “viver sem nem saber o que vivia, se é que vivia, porque a morte, às vezes, nos vem em vida, viver como se ele houvesse se tornado um personagem dele, amarrado demente a um lugar qualquer, só esperando a morte chegar.” – tive que reler isso três vezes, pra entender. pode ter sido coisa minha.

    “acontece que o teu cronista tem uma fórmula tão clara que seria possível emular um de seus textos, quase nenhum deles com mais de mil palavras” – hehehe (você deveria ter postado a crônica só pra tê-la linkado aqui)

    “consigo te imaginar indo na sala ao lado, conversando com as pessoas que eu não conheço, um copo de plástico na mão, um sorriso orgânico no rosto, os assuntos corriqueiros na ponta da língua – o tráfego, a novela, o fim de semana, a violência – , e o gosto do café na boca.” – gosto muito desse lance de descrever a rotina, mesmo sendo suposição (principalmente até). e achei foda a menção do gosto do café.

    “o engraçado é que anos atrás a bebida era menor, e foi crescendo, quando começamos a nos relacionar, virgínia, eu mal bebia e hoje, depois de muita merda e água pelo caminho, estou pensando até em deixar de beber!” – foda como ele relacionou os tempos de álcool com virgínia, mesmo não sendo ela a causa, mas pela medida do tempo.

    “você se apaixonou, eu me apaixonei, uma, duas, trinta vezes ao longo desse período, e tiramos anos de nossas vidas para viver com pessoas que nos fizeram algum bem momentâneo, mas que hoje só têm o poder da lembrança. e lembranças, como o gabo podia confirmar, coitado, às vezes nos escapam facilmente.” foda o poder da lembrança. foda a efemeridade delas. mais foda ainda trazer o gabo de novo aqui pra falar isso. sensacional.

    “somos mais fortes que lembranças, não somos? apesar de tê-las tanto, ainda temos um presente, um presente distante como se futuro fosse, mas, ainda assim, real como só o agora pode ser.” – a sequência também é muito boa. essa variante temporal pra dar a convicção no ‘mesmo não sendo, ainda somos’. mesmo que:

    “talvez um dia soubéssemos as respostas um do outro para a maioria dessas perguntas que a vida nos faz, mas hoje não.”

    espero que as postagens continuem.

    FH

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