Vá.

claro de manhã, o sol entrando pela janela aberta, as cortinas velhas já não são mais escuras, e guardam em si camadas de poeira como se fossem lembranças dos dias de antes. a cama está desforrada e ele só pensa em ficar nela o dia todo, mas seus olhos se abrem e ele sabe que não tem mais volta. a vida voltou aos trilhos e os sonhos ficaram para trás.

ouve os carros na rua, sempre caindo no mesmo buraco no meio da avenida, os ônibus, caminhões, veículos de passeio. sempre esperou pelo motoqueiro que caísse no buraco e morresse no asfalto, mas isso nunca aconteceu. de uma forma mórbida, isso o decepcionava.

não tem vontades maiores que um café. quase nunca sente fome antes das dez e o relógio ainda mostra sete no dígito das horas. os minutos passam seguidos um do outro, como sempre e, quando ele resolve levantar para escovar os dentes e preparar seu café preto, já está tão avançado que o sete já é quase oito.

espalhados pelos cantos da casa estão lembranças da noite passada. a garrafa vazia na cozinha, o copo sujo na sala, o telefone quebrado no chão, o espelho em cacos no banheiro e uma poça de vômito seco perto do vaso sanitário. precisava de uma empregada que limpasse para ele. sentia falta de seu lar, o que o fazia rir, porque dias antes estava pensando justamente que não tinha mais nenhum lugar que pudesse chamar de casa.

a geladeira está vazia, fora o pote de pó café que ele pega e derrama direto no filtro, medindo com o olho até achar que será uma bebida forte o suficiente para o que está sentindo. o estômago começa a queimar e a cabeça começa a doer. esfrega os olhos, pega a caneca e leva consigo até a mesa da sala.

cata os pedaços do telefone, tenta encaixá-los: uma atitude infantil da qual logo se envergonha. o que ele espera? que os pedaços se unam magicamente e voltem a funcionar? ele sabe que as coisas não se remediam assim, tudo é muito mais trabalhoso. sempre.

toma um longo gole do café quente e sente sua boca ficando dormente, não sentindo sabor nenhum, seu esôfago queima e o estômago embrulha. faz uma careta de dor. no segundo gole, no entanto, é mais comedido, tenta sentir o sabor e fica mais tranquilo. não pelo café em si, mas pelo ritual de bebê-lo.

tenta fugir das memórias da noite passada – o desentendimento, a briga, os gritos, o tapa em seu rosto, o sangue em seus olhos -, mas não consegue. seria como negar a sua própria existência naquela manhã. recorda-se do caminho até sua casa, feito a pé com a garrafa de bebida na mão – a mesma que está vazia jogada no chão da cozinha -, que ele comprou no posto de gasolina perto da casa dela e veio tomando até a sua. e lembrava do gosto da raiva sendo abastecida pelo álcool, o que só fazia com que crescesse e crescesse como uma labareda a consumí-lo.

abre um livro na tentativa de esquecer e leitura flui até certo ponto, quando a personagem se encontra confusa e se perguntando quais são os limites da realidade e do tempo: o que é o passado e o futuro, se tudo o que temos é o presente, mas ele já passou? nesse instante ele para a leitura e começa a lembrar. não tem mais como fugir, por mais que tente.

tudo começou tão bem, os beijos, abraços, sorrisos, aquela coisa toda de antes da tempestade vir a bonança. mas ambos sabiam que nada ia bem há tempos. foi um comentário que ele fez. sempre era um comentário que ele fazia. ele e sua mania de tratá-la como sua melhor amiga, como se ela quisesse escutar seus comentários mais sinceros e honestos e estivesse pronta para entendê-lo da maneira mais essencial que uma pessoa possa entender a outra. sempre tivera essas ilusões românticas. não sabia qual foi o primeiro comentário, se foi a colega de trabalho que lhe dera o número de telefone e pediu que ligasse para saírem qualquer dia ou se foram as risadas quando ela começou a demonstrar o ciúme, como se fosse aquilo fosse uma piada, mas para ele era óbvio que se ele quisesse traí-la, não diria que conseguiu o número de uma colega disposta a sair. não conseguia entender que ela se chateasse com aquilo.
foi alguma coisa entre um e outro, mas havia um infinito entre esses dois pontos.

no fim, ele disse.

“se você me pedir para ficar, eu fico.”
“pode ir.”

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a solução.

a solução é foder. foder como se fosse a única coisa, a única salvação, a única verdade, a melhor religião. foder como se tivéssemos acabado de nascer e descobrimos na foda o prazer da amamentação, o calor do corpo alheio; como se tivéssemos mil anos e não fodêssemos há séculos, como se o outro fosse você e vocês fossem um ser só. foder como se fosse a única coisa que existisse e nunca nos perguntamos se poderia existir algo além disso. foder como se anjos descessem do céu anunciando a vinda do salvador a cada movimento ritmado e os santos regozijassem e cantassem hosana nas alturas a cada gemido de prazer. foder como se, enquanto se fode, fôssemos capazes de esquecer o que somos, o que fomos e desaparecer com toda aquela idéia do que podemos ser, nos apagar do mundo e nos firmar na história. foder como se isso nos separasse dos outros, nos elevasse a divindade, nos jogasse no paraíso e nos desse todo o poder e glória, agora e para sempre. amém.

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c.

c. nasceu numa família pobre, mas nunca lhe faltou educação. dona maria, sua mãe, sempre lhe ensinou o que era certo e errado segundo os preceitos divinos, e lhe disse para nunca matar e sempre honrar pai e mãe, além, é claro, de amar a deus sobre todas as coisas.

o pai de c., seu josé, pedreiro há vinte anos, não sabia ler e só conseguia escrever o nome, e dizia a seu filho todo dia que a maior alegria que já sentira foi ver que sua criança aprendera a ler e a escrever aos seis anos de idade. na formatura do abc de c., e isso ele se lembra bem, viu seu pai chorando pela primeira vez na vida. esse fato só viria a se repetir anos depois, quando d. maria seria consumida pelo câncer de ovário e morreria numa cama de hospital.

foi por volta dos treze anos que c. percebeu de fato que era diferente dos outros meninos e que apreciava a companhia deles não apenas com propósitos de brincadeira. um dia comentou a mesa do jantar que achava um de seus colegas muito bonito. apanhou em casa do pai e viu sua mãe chorar por dias e dias, implorando a seu josé que não expulsasse c. de casa, que ele era apenas um menino e que não sabia o que estava falando. d. maria pediu a c. que nunca mais comentasse qualquer coisa do tipo na casa. por amor e respeito, c. prometeu e cumpriu com sua palavra. c. nunca mais apanhou em casa depois desse dia. no entanto, as surras se tornaram rotineiras na escola e frequentemente chegava cheio de hematomas.

aos catorze, c. arranjou seu primeiro emprego, cujo salário utilizava para auxiliar seus pais em casa. sr. josé e d. maria se sentiam orgulhosos pelo filho trabalhador, mas sempre o estimularam a se focar nos estudos. o filho único era a esperança do casal, que tinha o sonho de um dia serem pais de um professor, um advogado, um engenheiro ou um médico.

aos dezessete ele terminou os estudos do ensino médio e começou a cursar matemática na universidade. o primeiro ano foi corrido e difícil, mas conseguiu concluir sem dever matérias. vinha dando aulas para o ensino fundamental e ensino médio, mas tinha que conciliar com a faculdade, de forma que sua atenção nunca fosse dada exclusivamente a um só local. seguiu nesse ritmo até o meio do sexto período, momento em que sua mãe começou a apresentar um inexplicado aumento do volume abdominal, fazendo com que perdesse algumas muitas aulas acompanhando-a em consultas médicas que pareciam não levar a lugar algum. foi quando ele tinha vinte anos que marcaram a cirurgia para estadiar o câncer.

como resultado da cirurgia veio a informação de que não havia muito a se fazer por dona maria, e que o mais recomendável a ela era a paliação, tendo em vista o conforto da paciente e um maior contato com as pessoas amadas. naquele ano c. trancou a faculdade e largou seus empregos para cuidar exclusivamente da mãe. foi nas idas ao hospital que conheceu t., técnico de enfermagem que o auxiliou em relação aos cuidados com sua mãe e lhe serviu de apoio quando acreditava que não aguentaria mais e se punha a chorar. c. compartilhava com t. momentos íntimos e intensos e t. sempre o acolhia em seus braços. acabaram se apaixonando.

quando d. maria morreu, sr. josé começou a beber. alguns dias voltava para casa bêbado e derrubava sua bicicleta no chão da sala, sujava a casa de vômito e quebrava alguns copos na cozinha. alguns dias não voltava. no começo c. se preocupava com seu pai nas noites em que não voltava. depois percebeu que precisava voltar a viver sua vida. tentou retornar ao curso, para concluir e poder começar a trabalhar exclusivamente, mas não encontrava ânimo em nada. fazia tempo que não sentia mais prazer. passou a pedir a t. que não mais o ligasse e nem viesse a sua casa. não queria mais vê-lo. um dia, depois de sair bêbado do bar pedalando sua bicicleta, sr. josé encontrou no caminho um carro com o qual se chocou. o motorista, um jovem também alcoolizado, não prestou socorro. sr. josé morreu dois dias depois. três meses após d. maria.

foi um vizinho que lhe disse que tinha algo que poderia ajudá-lo. bateu uma tarde à porta de sua casa, entrou, desenrolou uma pedra de crack, colocou-a num cachimbo e a queimou, oferecendo a c., que aceitou sem pensar muito nas repercussões daquela ação. fumaram a primeira pedra em cerca de quinze minutos. a sensação que c. sentiu, descreveu ele, não estava em nada que até então vivera. era um êxtase intenso, uma sensação de ser capaz de entender tudo e ser parte do todo. assim que acabaram de fumar, c. entregou cem reais na mão do vizinho e lhe disse para comprar mais. naquele mesmo dia fumaram quase todas as pedras. no fim da semana, c. já não tinha dinheiro consigo. seu vizinho olhou ao redor e disse: “cara, você tem um monte de coisas aqui que não servem para nada e dariam um bom preço.” naquele dia arrancaram os assentos dos vasos sanitários, que eram de acrílico, e os trocaram por assentos de plástico, venderam uma das duas televisões da casa – a maior -, venderam o sofá -“pra que um sofá, cara, você tem cadeiras!” -, e algumas cadeiras – “cadeiras demais, até!”. o dinheiro obtido serviu para uma semana de pedra. seu vizinho passou a viver em sua casa e começaram um relacionamento.

por volta do segundo mês de usuário, c. recebeu a visita de t., mas não quis recebê-lo. t. forçou sua entrada e encontrou a casa completamente vazia. na sala só restava um colchão nu, deitado no chão. não havia mais camas, móveis ou eletrodomésticos. c. estava pesando metade do que pesava três meses atrás. pedia para t. ir embora, e dizia que não queria que ele o visse daquele jeito – dois de seus dentes haviam caído, sendo um deles devido a uma briga que tivera com seu vizinho antes de ele o abandonar três dias atrás, levando consigo pouco do dinheiro que restava, mas deixando pedras de crack o suficiente para que c. fumasse sem apresentar qualquer sinal de abstinência.

t. o abraçou e pediu para levá-lo consigo. “você precisa ser ajudado, c.. você precisa!” dizia t. entre lágrimas. c. baixou a cabeça e só concordou.

“eu só queria me sentir melhor, t.. eu só queria isso. eu sinto falta…” o choro quebrou sua voz e as lágrimas brotavam de seus olhos injetados. “eu sinto tanta falta.”

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cormac.

a festa era barulhenta, como todas sempre são. ele, já no terceiro ou sexto copo de cerveja, começava a sentir que as pessoas pareciam menos entediantes. talvez tenha sido isso que fez com que notasse ela do outro lado da pista de dança. pediu licença a sua companheira e aos amigos dela e foi até o bar, onde teria uma visão melhor do que achava ser uma garota atraente.

ainda com a cerveja em mãos, pediu uma dose de cachaça, que entornou num gole rápido, seguido de um longo gole de cerveja. “para lavar”, costumava ouvir a voz de um de seus amigos em sua mente toda vez que fazia isso. encostou suas costas no balcão do bar e perscrutou o lugar atrás dela. perdera-a de vista. voltou até sua namorada, deu-lhe um beijo longo e disse que estava cansado de ficar em pé. ela o abraçou e deu alguns passos para lá e para cá, tentando simular uma dança que não funcionaria naquele lugar, com aquela música.

“ana, vou descansar um pouco, então. sentar n’algum canto qualquer. vamos?”

“acho que vou ficar mais um pouco por aqui. dançando com a cecília. fica com o telefone na mão pra eu te ligar e te encontrar.”

“está bem.”

beijaram-se e ele se afastou, buscando um local distante da pista, onde pudesse sentar e fechar os olhos.

foi quando a viu novamente. ela estava no escuro e seus olhos negros pareciam sugar a luz enquanto a emitia ao mesmo tempo. nunca ficara tão atraído por um olhar antes. ela bebia uma bebida rosada, sugava um canudo transparente e segurava o copo longo com gelo com as duas mãos, entrelaçando os dedos finos. engoliu a bebida e falou com alguém ao seu lado, balançando a cabeça em negativa e sorrindo com o canto dos lábios enquanto justificava qualquer coisa.

ele passou por ela pedindo licença e encontrou o local para descansar. sentou-se entre dois casais e ficou com o celular na mão, alternando suas ações entre fechar os olhos, encostar a cabeça na parede e contar sua respiração e olhar os minutos passarem enquanto ouve o som à distância.

nesse tempo imaginou que a garota dos dedos longos e bebida rosa sentava ao seu lado e se apresentava dizendo que seu nome era julia e ele se apresentaria e se perguntariam o que cada um fazia e ele responderia que era residente de cirurgia e ela que estava fazendo mestrado em letras, tendo como objeto de estudo a literatura norte americana do pós-guerra. “pós segunda guerra, só pra deixar bem claro”, ela diria. então complementaria sua opinião informando que ele provavelmente não conhece muita coisa desse assunto, afinal, os médicos que conheceu sempre se afundavam ou nos livros de medicina ou nos mais atuais best sellers, e que os livros estudados por ela não era nem o sabinston – ela não diria o nome, mas chamaria de “compêndio de cirurgia” -, nem o george r r martin. ele perguntaria com um sorriso na boca “então, quem você estuda”, para mostrar interesse. e ela responderia “estou querendo trabalhar com a visão do mundo que o cormac mccarthy aparenta ter, as ambientações que ele dá ao mundo que ele constrói em sua literatura, às maneiras como as pessoas lidam umas com as outras, a forma como ele, em algumas de suas obras, quase não passa tempo divagando sobre qualquer assunto. as coisas são como elas são e com ele toda a ação é descrita, e tudo é descrição e, só com isso, ele consegue se aprofundar nas realidades de seus personagens, sem muita punheta mental como a maioria dos escritores faz.” e então ela ri depois de dizer isso. ajeita o cabelo e pergunta se ele está com alguém.

o telefone dele toca. ele abre os olhos. ele continua entre dois casais. casais diferentes, talvez. ele não tem muita certeza. atende ao telefone.

“oi. estou aqui perto dos banheiros. é. é. é perto de uma área de fumantes. não sei. eu vou praí. fica aí. tá certo.”

então se levanta e vai até ana.

ele sorri, a abraça e dá um beijo.

“vamos?” ela pergunta. .

ela dá o braço a ele e saem juntos. na saída, ao entrar no táxi, vê a garota a certa distância. ela acena para ele e parece dizer: “até mais, doutor paulo.”

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a saudade.

os passos ainda ecoavam em sua mente, e ele era ainda capaz de ver a luz branca entre as frestas da porta ao fim do corredor. não lembra de muito mais além disso quando acorda suando na cama. não sabe que corredor é aquele ou o que espera do outro lado da porta. ele nunca chegou à luz.

é a décima vez nesse mês que esse sonho lhe perturba a mente, causando um frio na espinha e fazendo o suor brotar de sua pele de forma intensa. o coração acelerado não é compatível com uma boa noite de sono, mas ele já não lembrava o que era dormir bem.

seu leito estava vazio, com os lençóis amassados, exibindo o colchão velho nu, onde todas as noites se preocupava com a possibilidade de acordar se desesperando no meio da madrugada. hoje, particularmente, o clima está ameno, úmido, chove do lado de fora e algo o faz pensar que ele está mais sozinho do que nunca antes esteve. gostaria de mudar sua situação.

levanta e vai à cozinha, onde se serve de um copo d’água. suas mãos tremem um pouco, mas não é frio o que ele sente. também não era sede o que sentia, mas deu mais um longo gole.

sabia o que deveria fazer. sabia o que lhe faltava.

saiu de casa com um guarda chuva em mãos e um molho de chaves em seu bolso. estava pronto para encontrar com ela. era o que faltava.

depois de pouco mais de dez minutos caminhando, chegou a uma casa fechada. destrancou o cadeado do portão, abriu a porta da casa e entrou. a escuridão tomava conta do ambiente, mas isso não o fez acender a luz. trancou sua passagem e, com movimentos medulares, caminhou através do aposento até encontrar outra porta.

estava num corredor. do outro lado havia uma porta. ele sabia disso. não precisava ver os contornos dela, nem era necessária a luz que vinha através das frechas. caminhou lentamente, como em seus sonhos, com os passos fazendo um som seco a cada pisada. chegou ao fim e girou a maçaneta. a luz que vinha de dentro iluminou o corredor vazio e o fez perder momentaneamente a visão até suas pupilas se adequarem à luz.

agora via tudo. lá estava ela.

o corpo jazia nu no chão numa poça marrom de sangue coagulado. não havia marcas além de uma lesão craniana que lhe abria o osso e expunha seu cérebro. os olhos abertos pareciam encará-lo agora, verdes e pálidos, sem a luz que os caracterizava antes. o cheiro do quarto beirava o insuportável, mas fora esse odor, o ambiente era praticamente asséptico. se perguntava como ainda não haviam encontrado ela ali.

caminhou até o corpo, ajoelhou-se, pegou a mão nas suas e achou estranha a ausência de calor. nunca antes tocara uma morta. nunca achou que voltaria a tocá-la, mas a saudade foi tamanha que ultrapassou suas expectativas. foi então que a amou pela última vez, sentindo seu sabor, adquirindo sua essência.

voltou para casa sentindo a chuva em sua pele. deitou em sua cama e fechou os olhos. naquela noite sonhou com risadas e declarações de amor ditas em passeios de mãos dadas.

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Nó.

às vezes chorava sozinho à noite, quando tudo o que se ouvia eram os carros passando na rua e o ventilador girando próximo do seu rosto. às vezes se pegava pensando como seria se houvesse um deus benevolente – ou até mesmo um cruel -cuidando de toda a terra, de cada um de nós, seres criados sua imagem e semelhança. às vezes se perguntava por que não acreditar nisso, já que seria tão mais fácil. até ensaiava: balbuciava algumas orações que havia decorado nos tempos de primeira eucaristia, mas elas sempre saiam de seus lábios com pouca naturalidade. faltava a paixão de crer.

às vezes, quando pensava muito, ficava triste por saber que seu tempo na terra era tão curto, em saber que depois viria o vazio, e que ele nunca tomaria consciência disso após a morte, porque não haveria como. quando se sentia assim, costumava olhar os álbuns de fotografia guardados, e passava horas vendo os tempos de sua infância, as pessoas que passaram por sua vida, as conhecidas que nunca mais encontrou, os amigos que já não encontra, os cabelos que foram alisados, as roupas que saíram de moda, os rostos que o tempo mudou, seus pais, os pais de seus pais, seus tios e tias e primos e primas que já não se vêem mais porque cada um vive sua vida, cada membro de sua família tem agora uma nova família. . então retirava algumas das fotos e as colocava em destaque em seu quarto, as pessoas que mais amou, as pessoas que já não estão ali. ele vê as fotos e sente vontade de chorar por saber que tudo o que ele tem daqueles momentos é isso: uma fotografia.

às vezes, principalmente quando está chovendo, tudo o que ele quer é ficar deitado em sua cama assistindo a filmes e sentindo o calor do corpo dela ao seu lado. mas ela não existe mais. ela voltou a ser uma ideia, um sonho. platônico. e então ele se sente só por não ter uma vida para compartilhar, um dia a dia para construir, uma rotina para cair, alguém para discutir sobre os filmes que assiste, para reclamar da trama do filme ou se espantar com alguns dos roteiros. ele se sente só no silêncio de sua casa, ouvindo a chuva cair lá fora, porque tudo sempre foi assim: silencioso. sua vida nunca foi cortada no meio do dia por gritos de crianças brincando, sons de pequenos pés correndo, passos secos no piso frio, deixando pequenas marcas de calor que não duram mais que segundos. sua noite nunca foi alegrada por um telefonema de sua filha para dizer que o ama. nunca receberá a visita de netos nos finais de semana, nem organizará churrascos ou feijoadas para a família aos domingos.

às vezes, quando percebe que sua vida está acontecendo naquele exato momento, quando sente o tempo passar, cada contração de seu coração a bombear seu sangue, cada segundo escorrendo, começa a sentir algo que ele só consegue descrever como “nó na garganta”.

às vezes ele acha que esse nó é cego, e não há nada a se fazer, mas boa parte do tempo ele luta para desfazer o nó.

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inspiração.

as gotas de suor já escorriam por seu rosto e ele já passara do desconforto do calor à agonia das altas temperaturas. já não ouvia mais tão bem, já não tinha mais o foco, apesar dos óculos estarem bem ajustados e a consulta com o oftalmologista ter ocorrido apenas cinco meses antes. alguém lhe perguntava alguma coisa, ele tentava entender, mas a falta de fluência naquela língua talvez ajudasse ainda menos que a sensação térmica.

não era só quente, mas também úmido. como o lugar de onde saiu.

e agora estava ali, longe de tudo o que pensou um dia para si, num local completamente desconhecido, estranho, uma cultura nova, cheia de pessoas diferentes, com suas histórias únicas, cheias de seus problemas – que todas têm, mas a mistura deles é que torna a vida de cada um verdadeiramente sua-, de suas preocupações, de seus sonhos e suas vontades. todas elas ali, prontas para ele.

falavam com ele mais uma vez. dessa vez o tocaram. era a mulher ao lado, de olhos azuis e cabelo acastanhado, uma pele bronzeada, avermelhada. seu toque era quente e deslizou por seu braço com suavidade, mãos macias lhe eriçaram os pelos dos braços. encontrou o olhar dela e pediu que lhe repetisse o que dissera. ela repetiu.

começou a sentir algum vento batendo em seu rosto, alguma brisa artificial criada naquele teatro finalmente soprou em sua direção e tudo pareceu fluir. respondeu a várias perguntas por pouco mais de uma hora e se sentiu melhor com o passar do tempo, quase como se depois dali fosse se levantar e tomar uma xícara de café, alguns copos de cerveja, duas doses de whisky, meia garrafa de vinho e mais uma xícara de café antes de resolver que era hora de se retirar e ir para a cama dormir.

então olhou mais uma vez para a sua frente e viu as centenas de rostos desconhecidos, todos aqueles olhos brilhantes a encará-lo na busca de qualquer sinal, esperando qualquer aceno, qualquer falha.

levantou-se ao fim de tudo, depois de responder com um sorriso a um galanteio da senhora de olhos azuis e pele dourada, apertou a mão do senhor ao seu lado, a da senhora galanteadora do outro lado, acenou à platéia e se retirou. sentiu o suor escorrer-lhe pelas costas e sua camisa de seda grudando.

tomou um banho no banheiro do camarim, enquanto algumas pessoas o esperavam do lado de fora, um ou dois conhecidos – um dos amigos que fizera nas viagens pelo mundo e com quem manteve contato através de correspondências ocasionais e uma amiga que viera até ali para se reencontrarem.

debaixo do chuveiro pensou que aquilo não fazia sentido, que aquelas pessoas não deveriam estar ali para vê-lo falar sobre o que ele faz, o que gosta de fazer, como faz o que ama e como colhe os resultados daquilo. era ele que deveria estar ali para vê-las, porque enquanto ele tentava viver as coisas em sua cabeça, a maioria delas estava, de fato, vivendo suas vidas, servindo de matéria prima para seu ofício.

ele devia a elas toda a sua inspiração.

por mais que ele soubesse que tal coisa não existe.

fechou a torneira do chuveiro gelado e começou a se enxugar.

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