alfa.

Ela tinha dezessete anos, mas podia passar por vinte e poucos sem levantar suspeitas. Um metro e setenta e três, cinquenta e seis quilos, embora quando a encontraram pesasse pouco mais de trinta. Seu corpo se encontrava em um estágio avançado de decomposição. O cheiro forte e a presença de aves carniceiras rodeando o local levantaram suspeitas nos vizinhos do terreno, mas não houve nenhum chamado para a polícia até uma tarde de abril, quando uma criança correra atrás de sua bola de futebol e encontrou o corpo.

Identificaram-na e a polícia entrou em contato com sua família, que havia entrado com uma queixa em relação ao desaparecimento da filha havia um mês, mas nada fora realizado e tomaram o caso como fuga do lar, muito comum nessa idade. As fotos que a família divulgou encantaram os policiais e causaram comoção na mídia e no povo. O caso teve repercussão nacional, matérias e matérias em todos os meios de comunicação foram produzidas sobre os acontecimentos – um canal de televisão chegou a exibir, em uma semana, seis programas sobre o assunto, sempre exibindo as imagens da jovem sorrindo, feliz, evocando toda a vida que teria pela frente não fosse o trágico destino que a esperava; um jornal chegou a imprimir um pôster em página dupla, estampando sob seu sorriso letras vermelhas que diziam: “ONDE ESTÁ O MONSTRO?”.

O corpo apresentava severas escoriações, eram claras as lesões em seu crânio – uma rachadura no osso frontal, achatamento no parietal -, os ossículos das mãos e pés se encontravam esmigalhados e alguns dentes quebrados, três costelas estavam quebradas. Seus órgãos internos não passavam de uma papa e os testes patológicos eram inconclusivos. A morte ocorrera há cerca de três semanas, mas a causa era não esclarecida: podia ter morrido de um ataque cardíaco ou ter sangrado até a morte.

A polícia começou a investigação buscando possíveis assassinos com depoimentos de seus pais, mas eles disseram que até onde sabiam sua filha nunca relatara qualquer confronto entre algum colega e ela. Revistaram seu computador pessoal à procura de qualquer registro de conversas que pudessem indicar um caminho a ser seguido na investigação, mas nada estava guardado em seu disco rígido, que continha apenas músicas ilegalmente adquiridas, filmes e seriados idem e fotos de sua câmera digital, que revelavam a morta como uma adoradora de paisagens, pássaros e pôres do sol. Seu nome era Andrea e, de acordo com depoimentos colhidos de colegas da escola que frequentava, era uma boa aluna. No fim do ano, era seu último ano de ensino médio, prestaria vestibular para engenharia ambiental. Sua turma de colégio, um tradicional, religioso, dissera que era uma garota calada em sala, sem perturbar professores ou alunos. Os professores disseram que não era uma aluna que se poderia chamar de genial, tampouco de medíocre. Seus pais também disseram que nunca apresentara um namorado à família, e relatava que nunca houvera caso de briga em família, sendo ela considerada por seu pai “uma menina calma e tranquila, sem rebeldias ou desobediências, a filha que pedi a Deus”. A mãe se apresentava chocada em seus depoimentos, sendo de pouca utilidade. Seus colegas de colégio informaram que era uma garota calada em sala de aula e estava sempre lendo. Quando perguntados sobre interesses românticos de Andrea por algum colega a resposta unânime era que não, que ela nunca se relacionara com nenhum dos colegas e que, para falar a verdade, ela quase não tinha amigos, Duas de suas colegas mais próximas, que freqüentavam a casa de Andrea ocasionalmente, disseram que a vítima estava se relacionando com um jovem de vinte e três anos, que aparecia duas vezes por semana no pátio da escola na hora do último sinal e ficava a conversar e rir. Disseram que a amiga o apresentou como um amigo, não como namorado, em certa ocasião, resultando em mais duas ou três conversas entre o jovem e elas. Ambas choravam muito ao interrogatório, mas ainda revelaram o nome do universitário: Fabrício; disseram também que ele se apresentara como estudante da escola de direito do estado, no entanto, não sabiam onde ele morava. Disseram também que nunca viram Andrea beijá-lo e jamais os ouviram trocar qualquer tipo de carícia em público além de elogios afáveis como “você está linda” e “você é muito interessante”.

A polícia encontrou Fabrício chegando em casa depois de uma quinta feira de aula. Era um tipo pequeno, não mais de um metro e setenta e cinco, com uma certa protuberância abdominal e ainda apresentando espinhas vermelhas na cara branca, a barba pro crescer ajudava a disfarçá-las. Perguntado se poderia reservar um pouco de seu tempo para conversar, reagiu de forma defensiva, e foi preciso insistência da parte policial até um convite para entrar em sua casa. Ao receber a notícia da morte da amiga, pareceu chocado, surpreso com tal informação e seu rosto expressou indignação ao perceber que ali estavam homens que o consideravam um dos principais suspeitos do crime. Disse que de nada sabia e que tinha um apreço enorme por Andrea. Quando questionado em relação a um possível envolvimento sexual entre os dois, sorriu e perguntou: “tudo para vocês é uma grande relação sexual, não é mesmo? no fim de tudo, a vida e a morte se resumem a sexo.” e deixou a pergunta sem resposta por algum tempo, até um dos policiais, eram três que o visitavam, resolver intervir dizendo que Fabrício sabia o quão importante são esses detalhes e que se ele realmente se preocupava com a menina morta, colaboraria com tudo o que pudesse. Ele acenou com a cabeça, encarando cada um dos três visitantes, e disse que sim, que havia um envolvimento sexual entre eles, mas que não era o único. Havia outros dois que ele sabia que iam para a cama com ela, conhecera-nos numa noite em que ela saiu com ele e o dissera que estava trepando com os dois. “Ela era do tipo boêmia, sabe? Adorava homens das artes.” Os nomes que Fabrício entregara eram de Carlos e Maurício, e o que ele sabia sobre os dois é que o primeiro trabalhava como chef de um restaurante e músico numa banda chamada “As sementes ruins”. Perguntado sobre Maurício, soube informar que ele era da mesma banda, e que tinha certo conhecimento sobre pintura, ao menos foi o que Andrea falou ao apresentá-los. “Ela disse que ele era o melhor pintor que ela já tinha visto e que ele sabia de tudo, dos melhores artistas, das melhores tintas e melhores técnicas.” A polícia saiu da casa ao ouvir seu álibi: estava nos estados unidos desde janeiro, tendo retornado há cinco dias, fato provado, enquanto a última vez que alguém a viu com vida foi há quatro semanas, Fabrício estava liberado.

A investigação seguiu, então, para a próxima pista: Carlos e Maurício. A banda faria uma apresentação na noite de sexta feira em “Um buraco qualquer”, uma boate onde drogados, pseudo revolucionários e pretensos artistas iam para desfilar seus egos. Encontraram Maurício primeiro. Ele, um sujeito bonito, de seus vinte e cinco anos, olhos castanhos claros, um queixo quadrado e a barba por fazer, no entanto tinha o aspecto sujo e sua roupa tinha manchas estratégicas de tinta. Ele conversava com uma garota linda, de não mais de dezoito anos, e dizia como adorava o surrealismo e a maneira como Dali expunha seus sonhos sem se preocupar em retratar qualquer coisa lógica, sem se preocupar com os julgamentos dos outros, ou de como a crítica poderia ver suas obras. A garota parecia hipnotizada pela conversa, seus olhos o encaravam com fascínio e adoração, como se dizer aquelas palavras, decoradas de uma revista de sala de espera de consultório médico, fizesse dele um homem interessante e exímio conhecedor das artes plásticas.

Maurício tentou dispensar a conversa com a polícia dizendo que estava acompanhado e ocupado naquele momento e que se quisessem papo com ele teriam de esperar até depois do show, mas logo pareceu se dispor a conversar quando mencionaram que ele era um dos principais nomes na lista de suspeitos do sumiço e assassinato de Andrea e que, se não colaborasse ali, talvez fosse melhor levá-lo para a delegacia, onde alguns colegas fá-lo-iam ajudar com o serviço. Ele deu um beijo nas bochechas da garota com quem falava e disse para ela procurá-lo depois do show, se afastando em seguida com os policiais. Começou a dizer que ficara devastado com as notícias da morte da garota e que sentiria falta dela e “até mesmo das bizarrices dela.”. Quando questionado a que tipos de “bizarrices” se referia, falou: “Cara, aquela guria tinha uns problemas de afeto fodas. Pra começar, ela só me chamava de papai e ao Carlos, meu amigo, o ‘padrasto’,” caiu na risada “a ele ela chamava de painho. Mas ela só chamava a gente assim na hora de trepar, que, na verdade, era a única hora em que ela chamava a gente, sempre os dois, nunca um só. E, acredite, eu tentei ir com ela sozinho, mas ela nunca topou, sempre queria foder com o papai e com o painho juntos. Não sei se o Carlos conseguiu alguma coisa com ela, mas acho que não. Ela só queria os dois pais pra foder com ela. Como dizem os gringos, ela era ‘total fucked up’”. A conversa com ele rondou esse assunto e o número de vezes que fizeram sexo “umas seis ou sete.” Dispensaram-no pedindo que mostrasse onde poderiam encontrar Carlos e, pouco antes de subir ao palco, tomar o microfone e cantar com sua voz grave e fora do tom da música que a banda tocava, ele confirmou tudo o que Maurício dissera, além de afirmar nunca ter feito sexo com Andrea na ausência de seu amigo “Eu até tentei, cara, mas ela dizia: ‘ou com os dois ou com nenhum. ‘” e confirmara o número de relações: “acho que sete”. Quando perguntado se sabia de algum outro possível amante de Andrea, Carlos disse que havia conhecido Fabrício, mas não sabia de nenhum outro, mas que não duvidava nada vindo dela. Em relação a álibis, estavam bem sólidos e válidos, estando em turnê com a banda em outra região à época do ocorrido.

Voltaram as investigações para o lar de Andrea, procuraram destrinchar a relação que ela tinha com o pai, no entanto, nada confirmava qualquer indício de abuso; em conversa com o pai, explicando sobre seu envolvimento com Fabrício e os outros, sem deixar claro seus desejos por sexo grupal e o fato dela chamar dois de seus amantes de pai, e o pai parecia chocado, disse que nunca soubera de nenhum relacionamento de sua filha e, até onde ele sabia, ele juraria que ela era abstêmia. A mãe, no entanto, que não prestara depoimento anteriormente comentou ter conhecimento da existência de Fabrício, mas mostrou-se tão chocada quanto o pai em relação a Carlos e Maurício. A polícia a investigou em particular, com suspeita de obstrução de investigação, mas a hipótese foi retirada da mesa após algumas perguntas, uma análise do perfil por um psiquiatra e muitas horas de choro. A polícia não tinha mais para onde ir.

Um mês se passou, a investigação perdia o foco a cada dia, a mídia já não noticiava mais nada sobre o caso. Havia cada vez menos rastros do assassino, se é que já houve algum, até que se deu o caso como inconclusivo, sendo arquivado e gerando protestos por parte da família, que referia incompetência da parte da polícia. Três meses depois a família apareceu na delegacia trazendo um pacote com fotos de Andrea sendo torturada e morta. Impresso no verso de uma foto, que mostrava o corpo morto de Andrea cheio de sangue, letras negras diziam: “minha primeira vez.”.

Dois dias depois, encontraram o corpo de Bianca.

esse texto foi postado originalmente no blog Halls de Café

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ódio.

“nunca achei que fosse odiar tanto assim” as palavras saíam tranquilas, num fluir leve, como se ele falasse de uma tarde de domingo que brilhava fresca ou o sol refletido no mar azulado, ou do frescor dessa noite de sexta, ou do sabor de um vinho de safra excelente. “nunca achei que fosse encontrar uma pessoa que me despertasse tanto asco, tanto nojo e tanta raiva quanto essa.” o interlocutor, um homem jovem, cabelos cortados rente ao coro cabeludo, a barba feita, falava com amigos na mesa de sua casa, copos em mãos, gelo, whisky, cerveja para alguns. na mesa, além da garrafa de jack daniels, uma tábua contendo queijos e defumados, algumas azeitonas. os amigos mastigavam enquanto ouviam. “mas aí um dia me descubro pronto para odiar, muito mais do que para amar. não sei se vocês conhecem um texto do neil gaiman, na edição 64 ou 66, no arco ‘entes queridos’, quando ele tem que pagar o preço pelas coisas que fez, enfim… nesse número ele faz desejo encontrar com sua neta, se não me engano, e essa personagem nos presenteia com um monólogo sobre o amor. alguém já leu? é um texto até famoso, li antes mesmo de ler no quadrinho.” alguns de seus amigos acenaram, outros balançaram a cabeça em negação, perguntando como era o texto “eu não saberia dizê-lo todo, sou péssimo com declamações e coisas assim, mas sei que começa ‘você já amou? terrível, não é?’. partindo desse texto eu gostaria de fazer a minha declaração sobre odiar. vocês já odiaram?” tomou um gole do conteúdo de seu copo, o sabor forte, um tanto adociado, fez com que sentisse seu rosto se contrair numa leve careta, apesar de achar aquele o melhor whisky que já provara, correção, whiskey, como são todos aqueles produzidos fora da escócia. olhou para seus amigos esperando uma resposta, inclinou-se para frente, espetou uma azeitona sem caroço e um cubo de queijo provolone e os pôs na boca de uma vez, mastigando-os e sentindo seus sabores se misturarem em sua língua. alguns dos amigos lhe responderam com sorrisos e piadas, mas é claro que odiavam. esses dias, disse um, odiou um homem por ter estacionado o carro atrás do seu, trancando-o e fazendo com que se atrasasse para um compromisso; outro confirmou o sentimento relatando da vez em que o namorado da sua irmã comeu toda a salada de frango que sobrou do jantar e que guardara para si. todos riam. quando o silencio caiu levemente sobre eles mais uma vez, ele falou: “todos foram exemplos hilários de sentimentos que nós chamamos de ódio. mas eu me referia ao verdadeiro sentimento de ódio. aquele impulso que se assemelha em muitas coisas ao amor, que ao invés de paixão, há uma sede inexplicável de vingança, de querer não apenas o mal, mas querer que esse mal venha para esse objeto do nosso ódio através das nossas mãos, que sejamos capazes, acima de tudo, de fazê-lo perceber quão inadequado aquele ser é para a vida, quão miserável ele é. e, admito, enquanto esse é um sentimento estimulante, extasiante, é, ao mesmo tempo, algo deprimente, incapacitante, angustiante.” todos prestavam atenção a ele “digo isso porque é impossível alcançarmos todos os planos dos nossos desejos de ódio; frustrante saber que nunca seremos capazes de fazer o mundo inteiro ver esse objeto como merecedor de nosso desprezo.” nesse momento lhe bateu uma sede, levou o copo à boca mais uma vez, daqui a três ou quatro goles, pensou, acharão que estou bêbado, dizendo incoerências, besteiras, mais das mesmas coisas de sempre. sorriu um riso claro, nada afetado pelo álcool, olhou para seus amigos, que o ouviam atentos, como todos sempre ouvem uns aos outros. pensou em como, quando a garrafa chegasse ao fim, as latas de cerveja estivessem amassadas na lata de lixo, estariam mais relaxados, alguns fazendo declarações inesperadas, chamando uns aos outros de mais que amigo, de irmão, dizendo que são eles a família que escolheram, mas ele não precisava do álcool para saber daquilo, ninguém ali precisava. “e só de pensar nas possibilidades de fazer o mal a esse objeto, só de sonhar em fazê-lo sofrer, diminui-lo, reduzi-lo a menos do que ele merece, a menos que pó, “mostrou os dedos indicador e polegar bem próximos um do outro “me enche de uma sensação sádica de prazer e de frustração.” respirou profundamente. um dos amigos perguntou o porquê da frustração. “ah, amigo, porque é algo a que se resiste, esse sadismo, algo ao qual não se deve entregar completamente, senão nos perderemos para sempre nele. é frustrante porque sabemos, enquanto sentimos, que odiar algo com todas as nossas forças nos exaure, cansa muito. e também porque nada do que sonhamos sairá disso, nunca se tornará realidade, não pelas nossas mãos, não como tanto gostaríamos que fosse. odiar alguém é esperar. é ter a paciência necessária para observar e torcer que ela cave sozinha seu caminho para essas coisas que tanto desejamos a elas. é frustrante porque não seremos nós que entraremos em contato com um matador de aluguel e pediremos com que pareça um acidente, um assalto ao qual ele reagiu; ou não seremos nós que arrancará cada unha com um alicate, nem nós que cortaremos a carne lentamente, nem quem empalará com uma ponta oca o corpo do nosso objeto, nem nós que amarraremos cada um de seus membros em um cavalo e açoitaremos os quatro, cada um em uma direção, nem nós a amarrá-lo a uma cadeira, em um quarto escuro, e deixá-lo lá com uma gota d’água a pingar em sua testa pelo tempo que precisar, até que ele implore por sua morte, até que ele ache que morrer é a única coisa que ele deseja. enfim, acho que vocês entenderam meu ponto.” sorriu para os amigos. alguns ficaram calados, pensativos, outros, no entanto, pareceram empolgados com os métodos de tortura, complementavam o discurso com alguns de seus favoritos como choques, dissecar os testículos ou simplesmente cortá-los fora e dar aos cachorros para se alimentarem. “o texto do gaiman termina dizendo: ‘eu odeio o amor’. eu queria poder escrever o meu e terminá-lo com ‘eu amo o ódio’, mas não sei se é bem verdade. mas o mais engraçado de todo esse ódio, meus amigos, é que ele só existe por causa de amor.” e aí um dos amigos que ficara calado boa parte do tempo respondeu: “mas quando é que não é assim?”

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mais daquilo que poderia ter sido e não foi.

no dia 5 de abril fiz uma postagem diferente de todas até então, contendo começos, meios e fins de textos que nunca tiveram um começo, meio e fim. estou há mais de meses sem completar um texto de ficção, estou há mais de um mês sem postar qualquer texto nesse espaço. hoje repito a idéia do dia 5 de abril, com novos textos sem começo, meio e fim.

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são quatro horas da manhã quando ele sai de casa, pega o carro e dirige até seu apartamento. a rua escura e deserta o faz pensar.

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ela disse que havia comunicação no silêncio depois que ele passou meia hora sem emitir um som.

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hoje li um texto meu de cerca de dois anos atrás. muita coisa mudou, mas quase tudo continua semelhante, se analisarmos tudo de forma distante e capaz de abstrair e interpretar. acredito que a principal diferença desse texto de hoje para o antigo seja o fato de eu já ter assistido a alguns filmes do woody allen e estar menos decepcionado com os estudos, no entanto ainda não é nele que está toda a minha concentração.

eu já não escuto joni mitchel, e não é como se eu escutasse ela tanto assim, anteriormente, mas há cerca de dois anos eu escrevia um texto pessoal como esse ao som dela. hoje estou em uma fase mais erudita, da qual espero não sair por um tempo. ludwig é executado no meu player do computador, um notebook diferente, cujas letras ene e bê e as teclas de interrogação e alt gr não estão funcionando.

é um mundo fantástico, certamente, e muita coisa aconteceu com ele nesses tempos que não tenho escrito. acredito que a mais importante delas, para mim, tenha sido a conclusão da primeira leitura de “o arco íris da gravidade” – o quarto está quente -, há cerca de cinco dias. foi um dos livros que mais levou tempo para concluir sua leitura esse ano, me tomando quase seis semanas para transpor suas densas 785 páginas. acho que o outro livro que me exigiu tanto foi o 2666, do bolaños, lido por volta de abril a maio.

sinto fome agora. sinto um cansaço, mas não do corpo. sinto vontade de parar.

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para o sexo existem as prostitutas, para as conversas e alegrias, os amigos. misturar esses dois parece uma boa idéia que se torna problema.

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estava um calor infernal e ele tomava uma bebida gelada, o copo transpirando tanto quanto ele molhava sua mão e o deixava incomodado. por isso tomava tudo rápido. sua camisa colava em seu corpo, mostrando seu corpo, as curvas de sua barriga

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ela acende o isqueiro bic com a mão tremendo, o líquido no recipiente transparente está no final e o dinheiro que tinha dobrado e enfiado no sutiã foi embora nesses dois pedaços enfiados na ponta do cachimbo. torce para que funcione, enquanto seu polegar pressiona e gira a roldana uma, duas, três vezes, escorregando por ela sem funcionar como deveria, a pedra não gera a faísca, continua tentando até que por volta da décima ou vígesima tentativa desesperada a chama brilha na noite, gerando pouca luz e aquecendo o contúdo do pito. O cheiro leve de borracha queimada começa a tomar o ar e ela suga tudo para seus pulmões. O coração começa a pular na caixa torácica e ela dá um grito, quase uma comemoração, um alívio. Está pronta para trabalhar, pelo menos no começo dessa madrugada. Ainda fumará duas ou três pedras mais essa noite, mas tudo depende da clientela.
Ela trabalha há dois meses nessa esquina, antes trabalhava a quatro ou cinco blocos dali. “Quando eu tinha mais corpo, era mais gostosona e essas coisa, quando eu topava ‘menas’ coisas, ‘menas’ safadezas, aí a ‘crientela’ era ‘menas’, sabe? Dava pra dois ou três por noite, mas só a frente, a parte de trás só fui começar a dar depois da ‘premêra’ ‘preda.’” Ela disse que fumou a primeira pedra de crack há quatro meses, e foi um antigo namorado que a ofereceu.

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“Não entre em pânico!” diz o dispositivo utilizado por Arthur Dent e Ford Prefect para explorar a galáxia. No entanto, em alguns momentos, parece que é tudo o que os personagens criados por Douglas Adams fazem.
Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, o autor nos apresenta um cidadão inglês comum, que não quer nada além de tomar seu chá e cuidar de sua vida, mas, num dia como outro qualquer, descobre que sua casa será demolida para a construção de uma autoestrada e que os planos já estavam à disposição na prefeitura há meses. Incapaz de mudar o fato, inconsolável, Arthur Dent, agora sem teto, encontra seu amigo Ford Prefect, um ruivo estranho, que se revela um extraterrestre e começa a falar sobre como devem sair do planeta, pois dentro de momentos ele será destruído. Assim começa a saga do último homem da terra.
O autor, também nativo da Inglaterra, utiliza de um humor ácido e depreciativo para criar uma crítica inteligente e precisa sobre o homem e suas relações com seus semelhantes – ou quase semelhantes, quando tomamos os Vogons como os chatos burocráticos que por vezes parecem dominar o mundo com seus formulários e horas de espera por uma informação – e com a tecnologia que o cerca e é mais frequente e importante com o passar da hora. Mesmo tendo sido concebido pelos idos de 1970, o livro continua atual em suas observações e em seus personagens, especialmente o robô Marvin, que faz astutas observações sobre as raças inteligentes e sua insignificância em relação a sua capacidade de raciocínio.
O Guia, como é chamado, é uma leitura agradável e leve, ao mesmo tempo em que contém uma força de imaginação e abstração que nos leva para os confins da galáxia e além.

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não sei mais o que é escrever. como colocar uma palavra atrás da outra de maneira gramaticalmente correta, de um jeito que, ao fim, seja agradável, interessante (para mim muito mais que para meu leitor) e que dure mais que meia dúzia de orações? como escrever sem começar a sentir uma angústia por saber que aquele texto iniciado vai ter o mesmo fim que os últimos trinta tiveram? já não tenho esperanças em relação À minha escrita, hoje eu ficaria feliz só por ter sido capaz de completar a minha meta de palavras, mesmo que elas não fossem tão boas, mesmo que elas não se encaixassem tão bem. hoje eu queria mais quantidade a qualidade, porque sei que a qualidade do pouco seria a mesma do do muito: não muito boa. mas eu não faço isso por mal, é que eu só queria escrever. me sinto mal quando não o faço, quando não consigo, quando as palavras fogem de mim como qualquer coisa foge de qualquer outra coisa que queira evitar, já que minha cabeça não está para metáforas, nunca esteve, acredito. queria que tudo fosse diferente, mas não é e isso me angustia. onde estão minhas palavras, onde está minha imaginação, meus personagens, minhas vozes? será que tudo se calou em mim? será que tudo morreu? Às vezes eu acho que sim, que não ouço mais nada, que não há mais nada, nenhuma vontade além das pequenas, de deitar e ler um bom livro, ouvir uma boa música, comer uma boa comida, sozinho, num quarto frio, ou em uma biblioteca climatizada, com controle de umidade, sem traças, com livros convivendo em paz e harmonia entre si e comigo. sonho com essa biblioteca, Às vezes, e ela é minha e somos felizes juntos, eu e ela e nossos livros. hoje vi guerra e paz, pela editora cosac naify, e babei por ela. e desejei ter 198 reais em meu bolso e tempo em vida para poder gastar com os volumes (dois). mas o tempo de vida é curto, o dinheiro não é meu, nunca foi. não sei mais o que dizer sobre coisa alguma. há anos eu sonhava com uma cabana no meio do nada, hoje sonho com uma biblioteca, talvez o paraíso de borges, quem sabe? não acredito em paraísos extra-terrenos, mas o borgiano é demasiado tentador.

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domingos.

já se findou outro dia, um desses que duram vinte e quatro horas e acabam com a semana e destroem o homem de formas irreparáveis exatamente porque, depois deles, começa mais uma vez a labuta. acabou-se o descanso, o tempo para relaxar como se não houvesse nada mais no mundo além do livro que está na cabeceira da cama ou os jogos de futebol na televisão e a comida que foi pedida pelo telefone, as horas e horas de cerveja, pizza e filmes no escuro ao lado de um corpo quente e querido que se enrola ao lado na cama, se protegendo do vento frio que sai do ar condicionado pendurado na parede, e o dormir tarde, ver o sol nascer depois de acompanhar o avanço da noite, cada estrela aparecendo e sumindo, piscando à distância no céu da cidade, tão vazio, tão sem sonhos e sem magia, imerso em poluição, uma camada que separa o firmamento, há tanto cantado, do homem, além do dormir muito, por horas e horas, acordar somente depois que o sol já está descendo seu arco no céu. acabou-se tudo isso. agora é hora de deitar cedo, se por na cama e fechar os olhos e se mover, e só sentir o sono chegando depois de muito tempo e adormecer mais tarde do que o desejado, levantar cedo, com o sol brilhando, subindo no leste, fazer os exercícios da manhã, os alongamentos, os abdominais, tomar um banho frio para lavar o suor e o sono, tomar um café quente para acordar de verdade, para sentir um começo de vida se acendendo dentro de si, comer um pão com um queijo, ou sair de casa às pressas, porque mesmo tendo dormido o que desejou, ainda não foi menos do que o necessário para não chegar atrasado onde quer que tenha que chegar.

tem início, uma vez mais, o ir e vir incessante, as horas de movimentação, somente mais um dentro de outro automóvel, no meio de milhares, indo lento em seu caminho, que por mais diferente que seja do dos outros ao redor, a essa hora todos parecem ter somente um rumo. o sol mal nasceu por completo quando se dá conta de que não importa o quanto se tente, se não sair mais cedo de casa, se não deitar mais cedo, vai ter que se privar de mais horas de sono. as buzinas são altas, o som toca uma das músicas que não saem do carro para que não haja nunca a possibilidade de se escutar rádio. o movimento subitamente melhora e os carros começam a correr, finalmente a terceira marcha, a quarta, os sessenta quilômetros por hora, talvez não chegue atrasado, afinal de contas, talvez tudo dê certo e talvez não tenha que perder os preciosos minutos de sono que tem. alegria, alegria. chega ao trabalho quase no limite do horário, nos últimos minutos de tolerância para bater o ponto, os colegas o olham com cara amarrada, ninguém dá bom dia, ninguém parece gostar de ninguém ali ou em canto algum, mas a vida segue e o trabalho começou, pronto para devorar qualquer momento particular que se venha a ter, qualquer segundo de esperança de que haverá um descanso em breve logo é frustrado por mais trabalho e mais esforço e os chamados ininterruptos.

não é diferente do que acontece aos outros, não é especial, é mais um trabalho, são as mesmas de oito a doze horas diárias, são os desejos de férias e as vontades de que todo dia seja um sábado à noite tranquilo, é a saudade da cerveja forte com pizza quatro queijos do fim de semana anterior, é a frustração por se recordar imediatamente das horas extras prometidas para o próximo sábado, é a exaustão que bate ao fim do dia, mas o sol ainda brilha e o almoço está sendo servido em algum lugar, mas ainda não pode ir porque faltam coisas a serem feitas.

se sente assim todo domingo ao pensar que é segunda feira o dia que se segue, mesmo em férias, mesmo quando não há trabalho, a lembrança que algum dia terá de retornar àquele inferno que só lhe serve de fator de risco para infarto o faz tremer, suar frio, sentir um aperto no peito e fazer com que o coração acelere, hiperventila por alguns momentos até que consegue se acalmar. o terror do retorno ao trabalho, à vida que se repete todo santo dia, num ciclo sem fim e sem variação, vez após vez após vez após vez, à pressão sobre si, às pessoas que dependem dele, aos colegas que despreza por parecerem não se importar com o que acontece ao redor, o faz querer nunca mais pisar ali, o faz querer mudar toda sua vida, fazer sabe lá o que, viver do que conseguiu economizar até agora, morar sozinho sem luxos, com seus livros, suas músicas, sem o terror de ter pessoas dependendo dele para qualquer coisa, sem ter pessoas querendo colocar suas vidas em suas mãos. a interconexão entre todos o faz ter vontade de ficar deitado em sua cama toda manhã, se levantar para urinar, beber água e voltar para a cama e dormir, dormir até que o mundo inteiro mude, até que as pessoas ao seu redor já não sejam as mesmas, até que os filhos dos filhos de seus filhos tenham esquecido quem um dia ele foi. queria poder dormir e encontrar uma paz em seus sonhos e, quando levantasse, que não lembrasse de nada sonhado, porque é assim que ele prefere.

ele sente o peso da existência todo dia, não só aos domingos, e não sabe como conviver com isso, mas ainda acha que existir é a única maneira de encontrar uma solução. a não existência não o seduz, as possibilidade do futuro que se estende à sua frente são, ao mesmo tempo, magníficas e desesperadoras e a certeza de um dia deixar de estar ali e parar de sentir o medo das segundas feiras, o nojo pelo trabalho, as certezas de sua rotina, não lhe parece uma coisa correta, lhe parece absurdamente frustrante. prefere viver com medo a não viver, para o que sente há remédios, há soluções.

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a luta.

todo dia eu me pego pensando: eu devia ler mais brasileiros. devia buscar os novos e ler os mais velhos, reler alguns para ver se mudei minha opinião em relação a eles (machado de assis, estou falando de ti, homem!) e analisar se, de alguma forma, eles podem me ajudar com os problemas que estou tendo no mometo: não consigo escrever. nada! há um bom tempo me apresento assim, mas o quadro vem se agravando nesse último mês e nem mesmo sinto a paciência necessária para escrever mais de algumas centenas de palavras por vez. e mesmo o pensamento de que algumas centenas de palavras a cada dia fazem um texto em uma quinzena não me ajuda, já que nada do que escrevo parece se conectar, ainda. talvez um dia, quem sabe, mas hoje não. também acho que estou escrevendo pior. estou errando mais, transformando tudo em curtas frases, o meu mau uso da vírgula parece ter se exacerbado aos meus olhos e já não sei se devo ligar as orações coordenadas apenas por uma conjunção ou se a conjunção deve ser precedida de uma vírgula. nesses últimos dias tive dúvidas em relação ao uso da vírgula quando se separa o vocativo. mas ela já passou e fui capaz de superá-la com sucesso, devo admitir. (essa vírgula me causou dúvida, por favor, se você sabe que seu uso é errôneo, corrija-me).

em relação aos meus erros, sei que haverá quem me corrija. sempre existem algumas nobres almas a quem recorro e que revisam os textos com boa vontade, mas e em relação ao meu assunto? só posso dizer que não tenho tido as mais brilhantes das idéias e que contar as velhas histórias de amor narradas em primeira pessoa já não me apetecem mais. gostaria de exercitar mais minha terceira pessoa, meu poder de criar situações que pareçam verossímeis sem a necessidade de um contador necessariamente presente em toda história, no entanto, desde que tomei essa meta para mim, poucos textos têm fluido e menos ainda são aqueles que vêem o ponto final. nada do que pensou ou escrevo me parece algo que eu leria, e se nem eu me leria, como fazer com que outras pessoas o façam? não tenho tamanho desprezo pelos outros quanto digo ter, além do mais, sempre prezo por uma boa história e uma maneira de contá-la que seja natural, orgânica, fluida, me pareceria demasiado ruim se eu fosse aquele a apresentar ao mundo algo qualquer, um texto que não me pareça dentro desses padrões por mim estabelecidos. há outros motivos para a minha não escrita, além da vontade de contornar a primeira pessoa do singular e querer explorar mais a terceira pessoa onisciente ou quase isso. tive muitos problemas com os eu líricos por eles não parecerem tão líricos assim, inclusive disseram as palavras calúnia e difamação, que causaram um medo terrível ao meu bolso e uma ligação ou outra para um dos meus defensores legais. mas nada digno de comentários além dos já tecidos.

todo dia que penso que deveria arranjar para mim alguma leitura desses novos escritores brasileiros elogiados (oi, mutarelli, estou falando de você e do meu pensamento constante de ir à livraria e comprar o teu “o cheiro do ralo”), mas então realizo que já tenho livros demais para ler na fila. e por mais que acredite que o livro nacional flua como nenhum outro (esse ano li apenas 4, sendo um deles de péssima poesia, os outros três de prosa boa, quiçá ótima, que foram consumidos em menos de três dias, um tempo que considero excelente para os meus padrões), acredito que é melhor dar prioridade sempre ao que já está a ocupar minha bancada, entretanto há um livro de jorge amado nela, será o próximo que lerei, talvez esse fim de semana, talvez o depois desse, ainda não sei, mas certamente “a morte e a morte de quincas berro d’água” será lido esse ano. fico tentado também pelos clássicos nacionais do século XX, guimarães rosa, que me tenta toda vez que vejo seu grande sertão: veredas, e nelson rodrigues (eternamente confundido por mim com nelson gonçalves), cuja reedição, em formato pocket, de “a vida como ela é” me tentou por ser um livro esgotado no catálogo, além de se apresentar num preço acessível e não ter um papel lixo como a edição de estudante do livro guimarães.

no momento me ocupo de um gringo, george r. r. martin, no primeiro livro da sua série de fantasia. os próximos dois livros da lista são dele, também, por coincidência ou não, depois seguimos com outros muitos gringos, que vivem aparecendo em minha vida em traduções e no original – recentemente a cia. das letras lançou herzog e uma linda edição de henderson, o rei da chuva, ambos do saul bellow e a cosac naify está prometendo pra novembro a tradução direta do russo de “guerra e paz”, e logo logo chegarão os livros do roth, do vonnegut e do foster wallace que encomendei pela amazon, além do dickens que me espera desde janeiro para ser lido na língua em que fora escrito, é muito livro e pouco tempo, como sempre. procurarei um tempo entre esses livros para encaixar algumas obras dos compatriotas, mas não garanto nada, já que a maioria dos meus pensamentos morrem antes de alcançarem o mundo real. às vezes por não serem boas idéias, às vezes por pura preguiça de executá-los, mas é desse mal que venho padecendo, como já puderam notar, há mais tempo do que me agrada.

há três meses, acho eu, dei inicio a um texto num caderno. escrevi uma folha inteira, dei início a uma segunda, mas não continuei, preciso voltar a ele, mas me falta a coragem para relê-lo e dar continuidade. sempre tive essa preguiça de me ler, mesmo achando que aquilo escrito pode ser bom. em maio ou abril tive a idéia para um texto que só começou a assumir forma real, mais de cem palavras, em agosto e somente agora, há dois ou três dias, passou das 500. há mais idéias mortas e morrendo ao meu redor do que pulsando em minha mente e não sei o que fazer para salvá-las. gostaria de fazer alguma coisa além de falar sobre isso, gostaria de escrevê-las, mas a mão cansa, a mente fica em branco e a vontade de fazer qualquer coisa que me tome mais de 10 minutos me exaure só ao pensamento. estou sendo derrotado nessa luta que não queria ter começado e, certamente, não gostaria de perder.

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o irmão.

Lembro a noite em que ele foi embora. Pediu suas coisas ao pai e foi. Duas sacolas de pano penduradas às costas, seguindo o caminho de terra que levava embora daqui. Ele precisava sair, me explicou; queria saber do mundo, descobrir as coisas que havia lá fora e que, aqui dentro, nunca seria capaz de ter. Lembro que foi uma noite fria, fato bastante estranho para um verão, e a lua não era mais que um fino fio amarelado no céu. As estrelas pintavam a noite com sua luz cheia de passado.

O pai se sentiu mal por dias, sentava-se em sua cadeira e se punha a pensar, o olhar perdido em algum lugar do passado, ou do futuro, imaginando onde errara, se errara, e o que poderia ter feito para ser correto, mas sabia que não podia se dar a esse luxo por tanto tempo e, logo, voltamos ao trabalho. A tarefa na casa ficou mais dura, cuidar de tudo era quase impossível. Trabalhávamos de sol a sol, nossas peles se escurecendo como a dos mouros sob o brilho do céu, ficando seca, com um aspecto de sujo. Algumas vezes íamos além e, vendo a lua nascer, rezando para que houvesse luz o suficiente para fazermos nosso trabalho como o Senhor gostaria que fizéssemos, trabalhávamos até acertar a colheita do dia.

A mãe só fazia chorar e orar e, em suas orações, fazia uma série de promessas vazias a Deus, dizendo que se seu bebê voltasse faria de tudo, jejuaria todos os dias até o sol se pôr por um ano, faria caridade, iria ao templo todos os dias e trabalharia lá como era a vontade do Senhor. Parecia que a mãe tinha perdido o único filho que parira, o único por quem tinha amor. A mãe chorava sempre que se lembrava dele, e era impossível não lembrar todos os dias em que acordávamos e ele não estava lá para fazer o que viria a ser uma barba um dia, mas que agora não passavam de apenas alguns finos fios que cresciam de forma aleatória em seu rosto adolescente; para tomar o leite recém-ordenhado com a nata gorda a flutuar no copo cheio; o café preto quente e forte para acordar, acompanhado do pão dormido do café da manhã, acompanhado do queijo feito por ele mesmo, peças grandes que fazia e que nos servia de alimento por dias. Toda hora do almoço era uma dor, porque todos sentíamos aquela ausência à mesa. Seu lugar ao lado da mãe e mais distante do pai, em frente à nossa irmã, que sentava ao meu lado, parecia gritar por atenção. Por alguns dias, os primeiros, a mãe chegou a encher seu prato com a mistura do dia, o peixe, o frango, a carne, até que ela percebia o erro, pedia desculpas ao pai, se levantava com lágrimas nos olhos, redistribuía a comida para todos e seguia calada em seu lugar, com o olhar marejado, sem dizer uma palavra a ninguém. Era-me impossível não me lembrar dele no arado, carregando a enxada em suas costas, segurando firme no cabo para fazer um bom serviço, para arar muita terra e, ainda que fosse um pesado trabalho, a terra úmida sob seus pés, sujando suas unhas, tornando seus pés negros como carvão, fazendo-o suar e feder, ele conseguia carregar um sorriso de satisfação, ele me confessou um dia, antes de cairmos no sono, por ser aquela a vontade de Deus e do pai, por saber que seu trabalho tem frutos. E quando voltávamos à casa depois de um dia de árduas obrigações, lavávamo-nos bem, retirando dos nossos corpos o cansaço acumulado, arrumávamo-nos para a janta iluminada pelas velhas velas, o pão quente, o café com leite, o queijo e ele sempre era o que mais parecia grato por tudo aquilo.

Mas um dia… um dia o sorriso que ele carregava ao fazer seus trabalhos já não aparecia mais em seus lábios, fazia tudo o que lhe era de dever, mas sem aquele prazer que um dia teve, somente o rosto sério e grave, uma expressão nunca antes apresentada por ele, até então. Com o tempo, ele começou a ficar distraído, voador, já não trabalhava com a vontade e então… então ele se foi. Arrumou as coisas que lhe foram dadas ao longo da vida, as roupas, uma túnica bonita, para festas e rituais, que ganhara há dois aniversários, algumas de suas roupas de arado, três túnicas gastas do dia a dia e seu kipá, além de algumas das economias que o pai e a mãe haviam guardado durante anos para um dia realizarem o sonho de possuírem algumas cabeças de animais, deixando-os quase pobres novamente. Ele foi para a vida, onde se perdeu, onde se esqueceu, de onde jamais enviou um mensageiro portando notícias de sua vida, que achamos que tivera um fim, e chegamos ao ponto de quase realizar ritos funerários de tão abalada e certa da morte de seu caçula que a mãe estava. Mas agora ele voltou. Agora voltou pedindo ao pai a oportunidade de trabalhar para nós mais uma vez, a chance de ser um dos nossos poucos empregados. E o pai o toma em seus braços como se esse, agora homem já feito, de barba grossa, cabelos longos, rosto queimado e gasto, mãos calejadas, nunca tivesse abandonado a casa, como se a traição não tivesse sido feita, e faz-lhe uma festa, dá-lhe do nosso melhor e eu, que nunca deixei a casa, jamais pensei em abandonar o lar, porque reconheço sua santidade, eu que sempre estive aqui por ele e pela mãe, eu… eu nunca ganhei tais coisas.

E se ele estava perdido entre mortos e foi encontrado vivo agora, quero eu também ser encontrado entre os mortos. Deixo a casa, pai, mãe. Deixo-vos porque sinto agora que viver por vós não significa nada, que viver por vós nada acrescentou à minha vida. Deixo-vos e digo que, se agora eu caminho entre mortos, entre mortos hei de deitar-me. Não farei como o irmão que, quando veio o desespero e a morte lhe bateu à porta, lembrou-se de onde sugar mais vida.

Digo-vos adeus em poucas linhas porque poucas linhas serão o bastante.

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do começo e da continuidade.

eu não lembro com que idade eu me tornei capaz de identificar letras, formar e unir sílabas lidas e transformar toda essa simbologia em algo lógico, fazendo com que tudo tivesse sentido. sei que desde cedo me vi rodeado por figuras que liam: minha mãe devorava livros com tanta frequência e numa velocidade tão grande que eu sinto vergonha hoje de quão lenta minha leitura flui; meu pai sempre comprava gibis da turma da mônica para mim, e quando se deitava depois do almoço para fazer a sesta, sempre levava consigo algumas revistas para ler até dormir; minha tia lia incontáveis romances de banca de revista: julia, sabrina, qualquer nome de mulher cuja história sempre envolvia uma paixão mais fulminante que hepatite, algum moreno misterioso, essas coisas. sempre ganhei livros de presente de natal ou aniversário, mesmo quando eu achava que ganhar livros não era a melhor coisa do mundo, quase comparado a desembrulhar uma meia, um pijama ou uma cueca, mas hoje penso diferente. não lembro qual o primeiro livro que li, o primeiro de todos, mas me recordo perfeitamente qual foi aquele pelo qual dei início de forma consciente à vida de leitor, mas ele não deve ser mencionado agora, talvez mais à frente.

por volta dos oito anos, eu já lera alguns livros paradidáticos (lembro-me de severino faz chover, da ana maria machado, lido na segunda série do ensino fundamental), muitas edições da turma da mônica – se hoje sou um leitor ativo, devo muito ao maurício de sousa e suas criações, e foi numa tarde de caminhada pelas ruas circunvizinhas à casa da minha avó que dei início a leitura de quadrinhos de super heróis. paramos numa banca de revistas nova, demos uma olhada no que havia por ali, minha avó se interessava por revistas que apresentavam novas receitas de comida ou faça você mesmo sua roupa ou artesanato. foi na prateleira mais próxima ao chão que a vi: uma revista pequena, com uma faixa de papel branco completando a capa, que tinha um homem saindo de chamas, sangrando e com sua roupa rasgada em certos pontos, um rosto raivoso, e acima da figura, seu nome: Batman, e a numeração em destaque: número Zero! achei que seria uma boa hora para se começar. Um ano e meio depois eu ganhei da minha tia a assinatura do pacote da DC.

anos se seguiram e eu continuava com minhas leituras de quadrinhos, expandindo para outras linhas além da do homem morcego, superman, liga da justiça. o primeiro quadrinho da marvel que comprei foi uma edição de “a teia do aranha”, número 96, que prometia dizer quem era o verdadeiro homem aranha: peter parker ou ben reiley. até hoje me pergunto como eu pude ser tão tolo de ler todas aquelas edições lixos que eram publicadas, como fui enrolado pela maldita saga do clone. sinceramente me questiono como diabos eu tive coragem de continuar lendo quadrinhos levando em conta a época maldita que foram os anos 90 para eles.

fato é que continuei lendo e em 1999, no brasil, teve início a saga “massacre”, com a edição de abertura sendo “massacre x-men”. na segunda capa do quadrinho, em edição americana e tudo mais, padrão que se seguia apenas nas minisséries e edições especiais da abril – e estranhamente, spawn e o selo image/top cow -, havia uma propaganda de um livro:  ”jornada nas estrelas, a nova geração e x-men: planeta x” e esse foi o primeiro livro lido por mim, já pelo começo de 2000, depois de uma feira de livros que aconteceu em alagoas, na qual meu pai me levou, e pude encontrar esse livro, finalmente.

me levou meses para concluir a leitura, 243 páginas sem ilustrações, um feito nunca antes conquistado por mim, que na época recém quase concluíra a primeira leitura de “amor de verão”. hoje, quase 12 anos depois de lido, mal posso esboçar um resumo do que vem a ser a aventura contada no livro. ao fim daquele ano de 2000, ganhei de uma tia, no natal, “harry potter e a pedra filosofal”, o primeiro livro da série da j.k. rowling (por que estou explicando o que é harry potter?). até fevereiro de 2001 eu havia lido os três primeiros livros dela.

a lista segue, cada vez mais confusa, quadrinhos indo e vindo, até que cessei a leitura por completo por volta de 2002, mesmo ano em que li “o hobbit” pela primeira vez e o senhor dos anéis, além do cálice secreto. depois disso tudo, meu histórico de leituras fica confuso, com lembranças de coleções de fantasia (a sétima torre, a trilogia de dragonlance, discworld), livros de comédia do luís fernando veríssimo, dan brown e, enfim, um sem número de best sellers, aos quais devo muito do meu gosto literário atual, visto que sem eles eu não prosseguiria minhas leituras.

foi quando saí do colégio que comecei a me interessar mais por livros, a lpm estava com um catálogo atraente e preços que eram mais que sedutores. associado a isso, houve a descoberta de vários clássicos da literatura na estante ao lado e o furto de “o evangelho segundo jesus cristo” da estante de uma tia. nessa época li kafka, saramago, garcía marquez, douglas adams. mas eu era jovem, impressionável, queria mudar o mundo e chutar a bunda de todo mundo, e o que gostei mesmo naqueles tempos foi de ler jack kerouac, john fante e bukowski, os sonhos doces de viver de bebida e viajar por aí, a leitura sem nada além da leitura, o oco. eu queria mais era xingar alguém e reclamar – não que eu não queria isso hoje, mas naquela época eu só fazia isso e não era nem um pouco sutil nas coisas que eu escrevia, e não que eu tenha melhorado muito, mas é que hoje em dia, pelo menos, eu tento trabalhar um pouco mais as coisas ficcionais que escrevo, pelo menos o suficiente para eu pensar que elas não são tão embaraçosas assim para se associarem a mim. eu queria era festejar, pegar uma mochila, jogar nas costas e sair por aí.

não digo que o que leio hoje é melhor que o que você lê hoje (provavelmente é, mas não é sempre que será, além de isso não vir ao caso). o valor da leitura, o valor do escritor, da literatura, é o leitor que dá. não é a leitura de best sellers que fará de você um mau leitor, menos ainda a leitura de augusto cury, padre marcelo rossi ou aquele outro padre bonitinho. quer ler tudo sobre vampiros? ótimo! existem coisas muito boas sobre o assunto: drácula é sensacional, anne rice construiu um império e reformulou o mundo da mitologia vampiresca com suas crônicas; quer ler sobre magos e bruxos? ótimo! a fantasia está repleta dele e gandalf, o cinza que virou branco está aí detonando balrogs! todos precisamos de um ponto para começar e não é um livro dito ruim que impedirá a leitura de um dito excelente. o mau leitor não é nenhum desses. o mau leitor é aquele que simplesmente não lê.

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